Grupo Gemeinwesen.
Stefano Borselli • Giacomo Di Meo • Marco Iannucci • Stefano Isola • Alberto Lofoco
Teoria mínima do processo de abstração (MTAP)
«Certeza: Adesão à eternidade»
Jacques Camatte (Glossario)
In memoriam.
ὁ Ἡράκλειτός φησι τοῖς ἐγρηγορόσιν ἕνα καὶ κοινὸν κόσμον εἶναι τῶν δὲ κοιμωμένων ἕκαστον
εἰς ἴδιον ἀποστρέφεσθαι
Hērákleitos (89)
«Heráclito diz que aos despertos este mundo é único e comum, mas os dormentes preferem por envolver-se
num mundo próprio.» [Plutarco, Da superstição ]
Premissa
Este texto é uma exposição necessariamente incompleta — dita mínima porque evita explicações arbitrárias de mecanismos e situações estranhas — dum processo que há milênios nos atravessa, e de conceitos já formulados, alguns antiguíssimos, sinal de que o processo foi intuído desde seu início. Quer-se aqui dar forma, coerência e linguagem explícita ao que foi visto e dito por homens que muito dedicaram-se a esta reflexão a vida inteira: certas formulações suas são aqui simplesmente incorporadas, em reconhecimento de sua precisão. Alguns nomes podem ser indicados: Lao-Tsé e Epicuro, mestres antigos; e dentre os modernos, Alexis de Tocqueville, Karl Marx, Lewis Mumford, Martin Heidegger, Alfred Sohn-Rethel, Ivan Ilitch, Jerry Mander, Jean Baudrillard, Jacques Camatte. Alguns dos modernos elaboraram teorias contraditórias, alguns apoiaram processos que declaravam combater, mas no quadro teórico — sempre mais cancelado por uma nuvem de tagarelice e alusão — contam com definições, relações entre conceitos e consequências verificáveis, não com biografia ou filologia; selecionamos aqui somente as estruturas conceituais coerentes com o quadro exposto. Outros nomes não são elencados, por terem escrito palavras decisivas, ou porque não são expressos em livros, mas em gestos, nas formas e na maneira de viver. ¶ É então um diagnóstico: segue a linha genealógica duma degeneração da abstração, que atravessa religião, Estado, capital, sistema técnico, para avaliar direcionamento e efeitos com métrica própria. Alguns conceitos aparecem antes de serem esclarecidos e seguem em seu desenvolvimento; outros são intencionalmente sucintos, adiando as noções neste ponto consolidadas. O texto não prevê nota: à teoria mínima é associada pois uma antologia de obras autorais — em muito contendo as primeiras formulações dos respectivos conceitos tratados, com relativa bibliografia — que acompanha e ilustra cada um dos parágrafos.¶ O Pós-escrito final não quer consolar, mas, reconhecendo a gravidade do diagnóstico, indicar a via — sempre presente — da aceitação.
Índice Antologia
0. Abstração
Todo ato de pensamento implica abstração: o isolar e o iluminar dum trato da realidade para compreendê-la melhor, sem porém negar tudo aquilo do qual provém. Esta abstração mental, ou conceitual, é um instrumento vital do conhecer: permite inventar conceitos, classes, categorias — como a classe de "recipientes" à qual pertence a jarra —; instrumentos de pensamento e não de substituição da realidade. ¶ Diversa é a abstração da qual este texto se ocupa. Esta inicia quando o conceito substitui a coisa, e a jarra não é mais vista como uma jarra concreta — que pode conter, refrescar, versar, mostrar-se... —, mas somente como um recipiente. Desde então o pensamento e a percepção não referem-se mais ao real, mas à imagem que o conceito construiu. ¶ Inicia-se assim um processo — comum a todas as funções vitais — de perda do próprio equilíbrio. Toda forma vivente conhece perigosos desequilíbrios: se defende, se corrige, às vezes consegue, às vezes não. Quando a abstração perde a métrica, subtrai-se a experiência humana da realidade sensível e relacional: transforma a vivência em qualquer coisa de separado, repetível, combinável, implementável e gerível como objeto técnico. Reduz o concreto a puro conceito e substitui o real vivenciado com representações e simulacros; transforma a jarra em mero recipiente e o homem em fantasma, recipiente de tempo limiar e mecânico; rompe os laços sensoriais, afetivos e territoriais e priva o indivíduo do prazer da presença, transferindo-o em esperanças sempre futuras — a redenção, as lendemains qui chantent. ¶ Um salto chega quando esta abstração não é mais somente evanescência da ideia, mas produz realidade. O dinheiro, a grande via retilínea, o televisivo, o smartphone, mas também o Estado, são abstrações reais; agem sobre o imaginário e seus corpos, impondo uma ordem própria.
Índice Antologia Ludwig Feuerbach, Max Stirner, Karl Marx, Jacques Camatte, Ivan Illich, Gianni Collu
0.1. Abstração real
Um objeto, uma estrutura social, uma técnica resultado e veículo de abstração. Entre os mais notáveis e estudados: o valor quando torna-se dinheiro, cunhado ou impresso — um senso de potência tangível que porta-se no bolso: "Se posso pagar seis garanhões, / a sua força não seria a minha? ". Mas então a televisão: não é um simples eletrodoméstico; como meio de comunicação remodela o ambiente sensorial e modifica a forma mesma da experiência, gerando uma sensação ilusória de possibilidade cognitiva ilimitada. Frente a isto, o agir humano — que é em si atividade corpórea, mental, pessoal e relacional — conforma-se à modalidade abstrata, a interioriza, enfraquecendo e quebrando a relação imediata com a natureza própria e externa. ¶ O fenômeno não é recente, surge em formas reconhecíveis já nas primeiras estruturas técnicas da história humana:
• 3.500-3.100 a.C — Primeiras máquinas estatais despóticas: escritura, burocracia,
taxação.
• 2.700-2.600 a.C — Suméria: A prata, em peso, é equivalente geral durável; medição
de valor, meio de pagamento, objeto de acumulação.
• 2.630 a.C — Pirâmides de Quéops: Primeira megamáquina e primeira subsunção real
do trabalho documentada (20 anos, ~100.000 trabalhadores em rotação, prevalentemente
salariados em rações padronizadas, parcelações rígidas da atividade, organização total
imposta).
• 2.600-2.500 a.C — Mohenjo-Daro: Primeiro planejamento urbano modular.
• 2.300 a.C — Império Acádico: Exército estável (5-10.000), administração centralizada,
rede de estrada.
• 1.200-1.050 a.C — Alfabeto fenício: Abstração da voz viva em símbolos combinados.
• 635-600 a.C — Cunhagem da moeda na Lídia: forma agora mais abstrata da abstração
real do valor.
Vai sobrelinear que toda a abstração real — não somente a monetária — é sobreposta ao mesmo processo desmaterializante. O caso da equivalência geral de comprimento é exemplar:
• 3.000 a.C — Antigo Egito: O "côvado real" (~52,3cm), encarnado num eixo de granito
preto, torna-se instrumento de comando estatal.
• 1795 — Assembléia revolucionária francesa: O metro é definido como a decimilionésima
parte do quadrante do meridiano terrestre; a referência é cósmico-abstrata, mas a
técnica constringe novamente a um campeão material em platina-irídio.
• 1960 — XI Conferência Geral do Peso e da Métrica (Sevres, Paris): O metro é redefinido
como 1.650.763,73 comprimentos da onda da radiação laranja do kripton-86.
• 1983 — Idem (XVIII): O metro é redefinido como a distância percorrida da luz no
vazio em 1/299.792.458 de segundo; a abstração torna-se pura convenção numérica, esvaziada
de todo suporte material.
Índice Antologia Alfred Sohn-Rethel, Jerry Mander
1. No caminho do dia • Fatos observados
Procedendo à luz do dia, na única evidência do comum, aparece, em contradição com a corrente narrativa, uma presença na qual a miséria dos modernos se desenrola na perda da criatividade, na ansiedade generalizada, no crescente confinamento. Sintomas gritantes — elencamos aqui somente aqueles a todos visíveis diretamente, sem necessidade de conhecimento particular ou aparatos científicos — que uma maioria remove. ¶ O diagnóstico é desagradável: a condição geral do homem está piorando. Afirmar que dum homem ao qual são amputadas as pernas não se possa dizer que "estava melhor antes", que é um estereótipo, idealização romântica e misoneísta, é certamente o topos na moda, mas permanece racionalmente inconsistente se se é capaz de compreender a natureza probabilística da linguagem humana. Sempre haverá um contraexemplo disponível — se pensar ao uso do quantitativo do "todo" —, mas não queremos com isso nos preocupar: críticas correntes de tal gênero nós propomos ao elenco dos paralogismos. ¶ Da nota, da inconsciência, aqui não falamos, para não dar corpo ao ombro.
Índice Antologia
1.1. Pobreza dos antigos e riqueza dos modernos ou vice-versa? Vice-versa.
A narrativa corrente é novamente aquela, contrafactual, histórica: a pobreza seria aquela arcaica, e a riqueza aquela moderna. O resultante antropológico dos últimos cinquenta anos mostra o contrário. A sociedade antiga e primitiva — cada uma diversa da outra e nenhuma paradisíaca: [sua retratação como] privada de conflitos, poderes e violência é somente a caricatura ideológica do bom selvagem —, definida "pobre", manifestava uma economia de abundância: tempo livre, relatórios não mercantilizados, confiança na reprodução espontânea da vida, intensa capacidade inventiva. Na sociedade moderna, a afirmada opulência é forma extrema de miséria: relacional, de sentido e de prazer, fundada sob carência programada, competição sistêmica, produtividade compulsiva e impossibilidade de parar.
Índice Antologia Henry David Thoreau, Marshall Sahlins, Jean Baudrillard, Guy Debord, Jaime Semprun, Juliet B. Schor, D. Graeber & D. Wengrow
1.2. Evanescência da Imediatez e perda do Simples
A Imediatez — contato direto com os outros e com a realidade sensível — e o Simples — forma elementar da experiência — se enfraquecem sempre mais. As formas de existência, um tempo gratuito e completo de sentido — crescer, aprender, lutar, nutrir-se, gerar —, vêm desagregadas, mediadas, reinterpretadas dentro da lógica técnico-produtiva. O processo não simplifica: reduz. O Simples não é aquilo que é pequeno, mas aquilo que se dá em sua completude imediata: a luz sobre um muro, o nascer e o morrer. Quando os sentidos fecham-se — por distração ou saturação — o Simples aparece uniforme. O uniforme incomoda. Aqueles que incomodam-se não encontram outra coisa que a monotonia. O Simples desvanesce. A sua força tranquila se exaura.
Índice Antologia François-René Chateaubriand, Martin Heidegger, Jean Baudrillard, Ivan Illich, Jacques Camatte
1.3. Desaparecimento da criatividade
Pedra angular da expressividade humana, a capacidade de criar, com as mãos e com a língua, se atrofia gradualmente. Desde sempre homens e mulheres têm vivido na criação cotidiana, de gestos, de palavras, de objetos que davam um sentido à sua existência porque surgiam da relação imediata, prática e emotiva, com o ambiente circundante e respondiam às exigências vitais de todos os dias. Recolher frutos e construir um cesto mais espaçoso com suas próprias mãos, poder transportar a um outro lugar, para então esmagar e comer, gestos simples que davam sentido e completude ao dia-a-dia. Com a divisão do trabalho, começou-se a delegar partes inteiras da existência de alguns membros da comunidade que tornaram-se especializados em algum campo, inevitavelmente fechando-se aos outros. Com o advento da máquina, a espoliação da criatividade atinge seu ápice, e com a máquina definitiva, que suporta a inteligência artificial, também a capacidade de criar linguagem e pensar está prestes a desaparecer.
Índice Antologia
1.4. Solidão e êxtase da promiscuidade
No mundo contemporâneo se assiste a uma forma nova e paradoxal de solidão: solidão imersa na multidão, nutrida da proximidade contínua. A cidade, os meios, os espaços públicos são completos de corpos que não se tocam, olhos que não se vêem, vozes que não se escutam. Nos gestos cotidianos — comer, caminhar, atender — se multiplica uma solidão que não é isolamento, mas ausência recíproca na presença real, proximidade sem laços. A promiscuidade como pura agregação física, a multidão, não produzem relação, mas saturação: uma sorte de êxtase magnético sem ventilação, que intensifica a solidão ao invés de aliviá-la.
Índice Antologia Edgar Allan Poe, Jean Baudrillard
1.5. Ansiedade e depressão generalizadas
A ansiedade e a depressão cessaram de serem condições excepcionais para tornarem-se polaridades cíclicas da existência ordinária na sociedade do desempenho. Tornaram o homem em agência de si, forçado a maximizar a própria sobrevivência como capital humano, a ansiedade se alimenta da obrigação de valorizar-se constantemente: todos os aspectos da vida são submetidos à lógica de mercado que a impôs a aparições desejáveis, eficientes, competitivas. O valor pessoal é medido em tempo real através de sucessos conseguidos, imagens e narrativas de si, gerando uma tensão crônica. A depressão se instaura como efeito da desvalorização: a invisibilidade é a derrota na competição, precipitando o indivíduo a um colapso subjetivo, cuja bancarrota psíquica e simbólica coincidem. ¶ A expansão imparável do remédio psicotrópico e aquela do recurso ao suicídio, do fim da pré-adolescência, são documentos irrefutáveis.
Índice Antologia Giorgio Cesarano & Gianni Collu
1.6. Controle e vigilância
O controle não é mais externo e pontiforme, mas contínuo: invade todos os momentos e entra em todos os aspectos da vida cotidiana. Todos os gestos, palavras e movimentos podem ser traçados, medidos, registrados. A vigilância não é mais excessão, mas prática difusa, integrada nas tecnologias comuns. ¶ Na infância e na adolescência, a intervenção constante sobre todo gesto, palavra ou conflito — também mínimo, verbal, ou somente gestual — impede a experiência direta das relações, a prova dos limites, a apreensão da gestão da própria força e fragilidade. Assim torna-se impossível a construção dum ser capaz de orientar-se no real e de ser parte ativa da comunidade.
Índice Antologia Alexis de Tocqueville, Juan Donoso Cortés
1.7. Confinamento
A existência acontece em espaços cada vez mais isolados e vigilados. A condição de Hikikomori não é uma patologia marginal: aparece como um destino. Cada vez mais pessoas vivem dias e dias, vidas inteiras, em ambientes fechados. ¶ Até algumas décadas atrás, porém, a condição da maioria da humanidade não era urbana: viviam ao aberto, em contato com a terra, entre ruídos e odores naturais, na Penia aristofaniana, a pobreza viva e compartilhada que nutria o prazer da presença. As árvores eram próximas, bem como os animais selvagens, que continuamente irrompiam-se no espaço de vivência e do trabalho. ¶ Mas também a vida urbana era outra coisa: tal a diferença entre uma casa baixa napolitana, com a porta aberta para a rua — da qual de suas janelas Lizst novamente poderia capturar as notas de sua Fenesta vascia — e um apartamento ao décimo-sexto andar, acessível apenas por elevador. ¶ O confinamento de crianças e rapazes, há um tempo desgraça de poucos (doentes ou prósperos) e hoje majoritária, é pois o fundamento do cisma cognitivo, do qual será tratado mais adiante. ¶ Quanta vida não perdeu-se à infância de Giacomo Leopardi, que dum jardim de rosas não via nem perfume nem cor, nem o enxame de criaturas aladas e rastejantes, mas só decadência e morte, e descreveu a obra pronuba das abelhas como estupro e violência? Ou naquela de Charles Baudelaire que preferia o odor artificial do benjoim àquele simples da rosa e da violeta? ¶ Qual percepção estéril impedia ao pequeno Eugenio Montale vislumbrar aquele "explendor pouco visível que se estendia à todas as coisas" que, contrariamente, iluminava o menino Martin Heidegger ao ver seu navio de madeira passando pela fonte de água da escola? O mesmo explendor que embrulhava Vincenzo Bugliani criança nas competições com os barquinhos e zuchinis na pequena gora do Monte de Massa que lhe parecia "o paraíso terrestre". Montale teve de observar à distância, como Leopardi, recluso, aqueles xebecs que para o menino Martin "chegavam de novo facilmente ao seu destino"; teve de ver apenas o naufrágio feito "nos redemoinhos da água ensaboada". ¶ Leopardi — e como ele outros poetas, mas não todos — não escolhia a realidade "mais profundamente": a via menos. ¶ Walter Benjamin, crescido no círculo burguês berlinense, elabora uma visão da história que recorda o jardim leopardiano onde abelhas somente torturam rosas, e toda vida é um massacre: só entulha a ver o anjo arrastado pelo vento do progresso, não reconhecendo que junto àquela ruína há vida. O jovem soldado ferido na guerra do capital que em licença passará as manhãs mais belas de sua vida com a amada, esperando os momentos eternos da presença, lhe resulta invisível. ¶ Do caso dos considerados rapazes selvagens resulta que, se na aprendizagem da linguagem falta uma abertura crítica, dificilmente se recupera. Assim, quem perde na infância a comunicação imediata com o simples — os jogos espontâneos, as aventuras fora do controle, as grandes amizades, as brigas e reconciliações que ensinam a sentir e medir a si e aos outros —, dificilmente a recupera em plenitude no futuro. Têm faltado a aprendizagem intuitiva da realidade relacional, das mensagens corporais que rolam sob as palavras e gestos simbólicos, da gestão de conflito e da reparação. A ocasião perdida deixa marca: a percepção torna-se amputada, e sobre esta ferida se enxertam imaginários poderosos, porém divisórios. ¶ Os poetas pouco entenderam as coisas mais simples e mais belas, mas possuíram o gênio de construir uma realidade literária que compensava a sua sofrência por aquela falta de adesão, aquela exclusão, com um vigário senso de eleição e fineza — e esta construção dá hoje novamente corpo e justificação às incertezas profundas de todos. ¶ Propriamente devido a isto a sua visão sustenta o mito poderoso da necessidade da redenção. Assim a espera da economia torna a passagem montaliana, o tempo-hora de Benjamin e a natureza leopardiana numa madrasta inimiga a ser combatida. É esta promessa redentiva, componente constitutiva do processo abstrativo, que modela o imaginário moderno: a realidade não basta, têm-se de combatê-la, superá-la, vencê-la. ¶ O confinamento, agora, não é somente físico, mas uma condição da alma, que, educada a não confiar naquilo que é, naquilo que se mostra, naquilo que se toca, não sabe percorrer seu caminho diário e, tornando-se num dos dormentes de Heráclito, envolve-se num mundo privado.
Índice Antologia Boris Vian
1.8. Declínio do corpo vivo
É aqui manifesta a decadência da capacidade corporal associada ao processo civilizacional, máxima ocidental. ¶ Colapso postural : dos ombros eretos à prevalente cifose; atrofia muscular : da tonicidade espontânea à hipotonia difundida; a força não serve mais, se sonha o esoesqueleto; redução da mímica facial espontânea : da mobilidade expressiva ao entelamento facial, o sorriso se desliga; perda da graça motora : dos movimentos fluidos à mecanicidade do gesto; desregulação metabólica : o corpo, conforme a falta, cede na abundância alimentar artificial oscilando entre carência e excesso; perda de equilíbrio e sensibilidade proprioceptiva : das crianças que atravessavam o fosso por um pau de bambu ao crescente tropeço na calçada uniforme; redução da respiração : do diafragma pleno, que acompanhava a atividade física, a palavra e o canto, à respiração cortada e torácica, acompanhada de ansiedade e imobilidade. ¶ A estes aspectos se acompanha um declínio mais sutil e precoce: a atrofia funcional da sensibilidade tátil e cutânea — que inicia-se na primeiríssima infância, com a progressiva cessação da prática de portar os recém-nascidos no colo e em contato corpóreo — o primeiro e fundamental ambiente de comunicação e de sentimento da presença, [encontrado] tanto em relações intraespecíficas quanto extraespecíficas, em particular com outros mamíferos. ¶ A pele é observada ser tecido de mesma origem que o sistema nervoso e de alguma forma lhe faz parte, a sua atrofia é uma limitação do acesso a uma forma primária de prazer, inteligência e relação. ¶ O corpo torna-se resíduo funcional, adaptado ao assento e à tela, com apoio de remédios e próteses. A sua degeneração já é mercadoria — dieta, fitness, cirurgia, integradores, aparelhos respiratórios — num mercado sem limites. A saúde é o coração da narrativa do sistema, com a caridade sendo sua forma mais cativante: a indústria do corpo doente que se apresenta como saudável. ¶ Menos relevado e estudado, mas não menos preocupante, é o substancial desaparecimento do canto e da dança, que por milênios acompanharam a vida dos homens e das mulheres. Não eram competências, mas formas de presença. Se cantava e se dançava de qualquer maneira: em grupos ou sozinho, jovens ou velhos, nos gestos cotidianos ou em ritos de passagem — nascimento, morte, matrimônio, festa —. Eram práticas condivisas e contínuas, que uniam trabalho, nutrição, luto, celebração. No canto individual, a presença revelava toda a sua riqueza. A dança, então mencionada, simbolizava a vitalidade do corpo. Hoje estas práticas, ou melhor estas alegrias, desapareceram da vida real. Sobreviveram desfiguradas na indústria do espetáculo e do entretenimento, entre tantos já absorvidas — ou destinadas a serem — da lógica combinatória.
Índice Antologia
1.9. Mercantilização ilimitada • They have brought whores for Eleusis [eles trouxeram putas a Eleusis] (E. Pound)
Todos os aspectos da experiência humana — emoções, relações, memória, identidade — podem ser isolados, valorizados, transformados em mercadoria. Também aquilo que um tempo não era comerciável — a poesia e a história, a palavra, a variedade vegetal e animal — hoje possui um preço. Os sentimentos tornaram-se em conteúdo; as histórias pessoais, pacotes a se vender; a sofrência, uma ocasião midiática. ¶ Também o corpo é desagregado e recomposto: vendem-se órgãos, ovários, úteros; aluga-se a capacidade de gerar, compra-se identidade, paga-se a aparência para uma cena. Nada mais é indisponível, nada mais é sagrado. ¶ O ser humano não é mais somente exposto ao mercado: é tornado em forma-mercadoria — oferecido, exibido, monetizado, atualizado.
Índice Antologia Karl Marx, Jaime Semprun, Chuck Palahniuk
1.10. Plastificação da língua
A perda da relação com os fenômenos e com o mundo da vida se traduz na plastificação da língua, onde as palavras de plástico, meramente conotativas e privadas de poder definidor (ex. sexualidade, desenvolvimento, comunicação, informação, recurso, parceiro, serviços, governança, sustentabilidade, resiliência, inclusão, competência, excelência), são o texto da ponte do Sistema técnico da linguagem comum, que se resulta colonizado e desarticulado na sua riqueza e na sua plasticidade semântica. Um fenômeno situado numa tendência antiga, já advertida na perda de imediatez das línguas civilizacionais mais antigas respectivamente à densidade performativa e rituais da cultura oral. Paralelamente à depauperização semântica, as línguas conheceram uma degradação morfológica: o desaparecimento progressivo dos casos, das dualidades, das flexões verbais sutis, substituídos pelas proposições e construções auxiliares, tornaram a palavra mais rígida e menos capaz de modelar nuances. Assim, aquilo que um tempo se curvava e se plasmava em infinitas variações, hoje se reduz a sequências padronizadas, mais transparentes, mas também mais pobres. A plastificação contemporânea não faz mais do que acelerar esta trajetória, apresentando como natural toda a historiografia para torná-la imune a toda crítica, e é cossubstancial à conversão da vida em laboratório, com todas as consequências em termos de perda da imediateza e da criatividade que aquele [indivíduo] comporta.
Índice Antologia
1.11. Perda do prazer • Assassinando Epicuro
Sobretudo no Ocidente, já nos rostos dos transeuntes pode-se ler a perda do prazer: aquela plenitude da relação com o vivente, o cosmo, os outros e a si mesmo. Prazer significa integrar a espontaneídade do ser, acolhendo tanto o previsível quanto o imprevisto, unindo experiência sensorial, liberdade e continuidade. ¶ Esta continuidade, que requer atenção e presença, encontra-se perturbada e interrompida pelo barulho generalizado das mídias e dispositivos, desviada pela ansiedade performativa e representativa, suprimida pela depressão difundida. Assim, a experiência se destaca do corpo, a relação se reduz à imagem, o prazer curva-se à eficiência, a alegria à diversão, enquanto a espontaneídade necessária é aniquilada pelo controle: não há prazer.
Índice Antologia
1.12. Metafato: O cisma cognitivo
Frente aos fatos expostos revela-se uma divergência. Uma minoria — também no mundo "intelectual" — a vê, embora a mesma tente eludí-los. Uma maioria crescente, cega, não lhe percebe o significado. A desproporção é verificável: basta um campeão em conversação cotidiana para constatá-la. Não é um fato entre outros, mas o modo mesmo no qual os fatos percebem-se ou cancelam-se: um metafato.
Índice Antologia Clint Eastwood
2. Fase remota do processo de abstração
Anamnese: curso remoto do processo e seus primeiros passos. A abstração não irrompe repentinamente na história humana: possui longas raízes, uma gênese pré-histórica. Já nas primeiras formas de humanização, quando se desenvolveu a capacidade simbólica e se consolidou a linguagem, lentamente começa uma tentativa de retirar-se do ritmo caótico da natureza para substituí-lo com estruturas artificiais de tempo e espaço. Nesta fase embrional, o símbolo — e com isto a linguagem, o gesto técnico, o habitar — não é mais disjunto do corpo e da realidade, mas começa a funcionar como instrumento de domínio simbólico. O tempo não é mais visto como fluxo orgânico (estações, gravidez, lua), mas como isomorfo e redutível a uma sequência codificada: calendário, hora, métrica. O mesmo vale ao espaço, que do percurso experienciado se faz também este homogêneo, isomorfo, grade ordenada, primeiro na vila e depois na cidade. A domesticação da natureza vêm então em primeiro lugar sob o plano simbólico, antecipando toda infraestrutura ou máquina. O resultado é uma forma incipiente de regularização da existência: uma grade espaço-temporal que prepara a cena para a verdadeira e própria ativação do processo. Esta pode colocar-se ao início do neolítico, talvez desencadeando uma ameaça real de extinção, que têm catalizado dispositivos humanos já presentes. ¶ O processo de abstração não é uma sequência linear de causa e efeito, mas um círculo de co-constituição: os seus momentos — incapacidade de sustentar o real, aspiração redentiva, inimizade, ideia-força e abstração real (Estado, dinheiro, técnica) — determinam-se e constituem-se interativamente num feedback positivo. A sua exposição em parágrafos separados é necessidade da linguagem, mas não implica sucessão temporal.
Índice Antologia André Leroi-Gourhan
2.1. Human kind cannot bear very much reality [A espécie humana não consegue encarar muito bem a realidade] (T.S. Eliot)
Aparece como antiguíssima uma dificuldade com a aceitação da realidade. Quando não superada, esta passa a ser entendida como excesso, como uma experiência tão intensa que se apresenta com uma urgência e uma pressão insuportáveis. De frente a isto, o ser humano passa a negá-la, a afastá-la ou neutralizá-la.
Índice Antologia T.S. Eliot
2.1.1. Criação dum mundo imaginário
A incapacidade de sustentar a realidade gera mundos imaginários, privados ou coletivos, que substituem ou deformam a experiência compartilhada. A mente, subtraindo-se ao comum e ao sensível, construiu fragmentos de realidade autônoma, incoerentes ou parciais, autossuficientes em relação ao mundo vivenciado.
Índice Antologia Hērákleitos
2.1.1.1. Representação • Espetáculo
O conteúdo separado da experiência se exterioriza como conto mítico ou reconstrutivo, rito, espetáculo. Em sua origem as representações carregavam sobretudo o sagrado, a divindade, as figuras do imaginário; com o tempo tornaram-se também memória histórica e autorrepresentação dum polo — guerra, genealogia, escrituras. Com a formação do indivíduo moderno, a representação move-se em direção à vivência pessoal, até às formas contemporâneas nas quais a exposição de si, cotidiana e privada, torna-se espetáculo — reality, mídias sociais —, e tudo aquilo que era diretamente vivenciado é removido numa representação.
Índice Antologia André Leroi-Gourhan, Guy Debord
2.1.2. Remoção • Subterfúgio • Reversão
A rejeição da realidade se realiza através de operações psicológicas profundas, contínuas e universais. ¶ A remoção é a primeira destas. Não se limita a ocultar um conteúdo, mas em impedir a imersão: cancela traços primordiais que tornam-se pensamento. A dor, a laceração, a perda — aquilo que não pode ser sustentado nem nominado — são excluídos da consciência formando e nutrindo um depósito que é chamado de inconsciente. ¶ O subterfúgio não cancela, mas subtrai ao olhar, permanecendo todavia presente a todos. Aquilo que é insuportável ou perturbador é evitado, deixado à parte, jogado nas margens. É um fazer "como se". ¶ A reversão (ou di-versão ) não reprime, mas desvia. O fluxo do discurso ou da consciência é imperciptívelmente movido, removido daquilo que é desagradável, mediante técnicas sutis de deslocamento. ¶ Estas três operações nasceram como mecanismos de defesa, mas se transformaram em instrumentos operativos da domesticação.
Índice Antologia Jacques Camatte
2.2. Corrigir a criação • Aspirações de redenção terrestre da "madrasta natureza"
A incapacidade de sustentar a realidade como excesso insuportável gera, já em tempos remotíssimos, a espectativa duma mudança radical. Esta acompanha o nascimento da agricultura, do Estado, da escrita e se desenvolve com o tempo como ideia de destaque da natureza e de construção duma Terra refeita, liberta de todos os males. ¶ Transformar não é em si algo abstrativo: todo [ser] vivente transforma, e também o impulso humano de transformar é natural. Diversa é a concepção de que um destaque radical da natureza seja necessário — ao fim dum sonho de imortalidade terrestre. Esta ideia, que por si não é religiosa, e que chamaremos de redentiva no sentido aqui esclarecido, surge como sonho universal, presente em formas e intensidades variáveis em diversas culturas — entre os casos documentados, aquele dos Guaranís no mundo amazônico —, se autoenforça quando se chega à criação da abstração real: o cunho da moeda, o Estado centralizado, as escrituras, a acumulação sistemática (a escolha do termo "redenção" não foi fácil, conscientes de que ele designa legitimamente também aspirações espirituais e escatológicas, ou mudanças reais não abstratas; mas é próprio no campo religioso, criptorreligioso e filosófico que tal aspiração assuma uma densa dimensão terrestre e a forma de negação radical do dado naturalmente). Aciona-se assim um círculo de retroação positiva que, em condições favoráveis e com êxitos estatísticamente variáveis, pode evoluir a um processo autônomo e autoexpansivo. É uma história verificável e quase universal — Índia, China, Império Ameríndio... — mas são também registráveis as respostas: tentativas de confinamento e contraste, seja da parte religiosa arcaica, oriental, islâmica e no cristianismo ortodoxo, seja do Estado. É entretanto verificável que no Ocidente — também por influência subterrânea das tradições helenista e gnóstica, não de pura fuga do mundo, mas redentiva —, com o judaísmo helenizado-cabalístico e o agostinianismo, o processo realiza um ulterior progresso reforçando a presença no complexo Estado-religião. ¶ A força da ideia redentiva, assumida como referência normativa, se transmite a outras ideias abstratas, suas passagens e concretização — Direitos universais, Free Trade, Democracia, Socialismo, Hierarquia, Igualdade, Propriedade, Paz perpétua e Bentham — que se representam como grande melhoria, permitindo assim de se condenar toda situação social dada enquanto dada, sem mais precisar demonstrar que o novo será realmente melhor e produzindo somente consequências opostas àquelas que se esperam: a heterogênese dos fins. ¶ Aquela aspiração é então um dos motores principais utilizados pelo processo de abstração: sem a promessa de redenção, este não teria a sua força militante e visionária de avanço e de reprodução. Todas as aspirações redentivas possuíram além disso o efeito de transformar o tempo em pura espera: do Messias, do Mestre secreto dos alquimistas, do proletariado, do tempo-hora, da insurreição invisível, do tempo-que-vem, do chip, da singularidade. ¶ Um enfraquecimento da vivência e da presença, perfeitamente correspondente à ansiedade da mercadoria, em perpétua espera de valorização.
Índice Antologia pseudo Alighieri, pseudo Goethe
2.2.1. Imortalidade
No coração da ideia redentiva se aninha a esperança duma possível imortalidade terrestre. No âmbito religioso, não deve-se confundí-la com aquela dum mundo ultraterreno; tal aspiração, embora onipresente, assume características doutrináriamente mais desenvolvidas e operativas na história ocidental — judaica e agostiniana. Com "agostiniano" entendemos tanto o catolicismo — que também nos períodos de proclamado tomismo, como aquele oitocentista, não mudou sua prática agostiniana, naquela hora evoluída em rigorismo jansenista — quanto os ramos centrais do protestantismo, luteranismo e calvinismo, que, eliminando não só o tomismo mas também os resíduos evangélicos anti-abstrativos — a abertura ao Simples, às crianças (cuja expulsão luterana da igreja é símbolo explícito da liquidação do legado jesuano: "se não se tornarem como crianças", "deixe que as crianças venham até mim"), a crítica do valor e do cálculo —, portanto o agostinianismo às suas consequências extremas, privilegiando o velho modelo antigo-testamentário. A ideia da imortalidade ultraterrena permanece no âmbito do inefável, enquanto aquela da imortalidade terrestre, a promessa de nenhuma lágrima nem frustração, é incompatível com a vida, com a realidade dada, à qual prefere o nada. ¶ As culturas arcaicas sempre manifestaram o perigo daquela aspiração, que pelo mesmo desenvolvimento, buscavam freiá-la. Nos grandes mitos mesopotâmicos e gregos, o desejo da vida eterna é apresentado como loucura, hybris: Gilgamesh se aproxima da imortalidade e falha, Sísifo e Tântalo são condenados à pena infinita por terem desejado ultrapassar os limites, Titão obtém a vida eterna mas continua a envelhecer sem fim. O mito funciona aqui como katéchon: revela o impulso para desativá-lo. ¶ Também no mundo judaico e no cristianismo primitivo convivem visões da morte como dado heracliteano da criação, como parte do plano divino, e outras que a apresentam como salário do pecado, como queda da mesma natureza, entrada no mundo através da desobediência do primeiro homem. Com Paulo e João evangelhista — que no seu reino milenar terrestre promete "um novo céu e uma nova terra" onde "não haverá mais morte, nem luto, nem lamento, nem ofego" e, detalhe não insignificante, nem mesmo mar (os etólogos registraram entre as baleias uma viva e prolongada expressão de luto pela perda dos filhotes: na visão resolutiva de João não há nada de mar, nada de caos, nada de baleias nem de baleiazinhas, [e portanto,] nada de luto) — mas sobretudo com Agostinho, a ideia redentiva se radicaliza definitivamente na tradição cristã ocidental. Reforça-se no protestantismo, torna-se matriz de pensamento e de jaula mental fazendo-se em esperança revolucionária, transforma-se em messianismo fraco de espera, finalmente chegando ao mito tecnológico do transhumanismo contemporâneo. ¶ Não trata-se somente de negar a finitude, mas de projetar a sua superação: salvar-se da corrupção, sobreviver ao tempo prolongando-o ao infinito. No entanto, tal busca pela imortalidade traz uma profunda incompreensão daquilo que verdadeiramente significa a eternidade. A redução do tempo vital a uma dimensão homogênea e mensurável transforma aquela que poderia ser a autêntica experiência do eterno — aquela plenitude que às vezes aparece em momentos de máxima intensidade vital e relacional — na mera espectativa duma perenidade já descrita no mito de Sísifo.
Índice Antologia Francesco d'Assisi, Jonathan Swift, A.E. van Vogt, Ivan Illich
2.2.1.1. Do conflito vital à inimizade • Erradicar o "mal"
A redenção gera o inimigo: aquilo que é a causa da queda, do mal, da imperfeição — ou somente aquilo que atrapalha a salvação — deve ser anulado ou neutralizado: seja-o planta, animal, homem ou povo. O trato com o outro não funda-se mais sobre a relação, a cooperação e o conflito vistos como formas vitais, mas sob uma ordem abstrata que exige um mundo expurgado de toda negatividade, no qual também os conflitos naturais são excluídos enquanto forma viva das relações. ¶ Todavia o conflito vital, também violento — entre predador e presa, entre grupos por território, entre individualidade e coletividade para resolver qual vontade deve prevalecer — é uma atividade natural, como a reflexão e a escolha que lhe acompanham, que muitas das vezes este opta pela fuga. Nasce das condições concretas e se exaure na conquista ou na falha em atingir o objetivo, sem superfetações como honra, dever, etc. A inimizade redentiva, pelo contrário, ontologiza o adversário: não mais este lobo que ameaça o rebanho, mas "o predador a se erradicar"; não mais este grupo que compete pelos mesmos recursos ou prevalece, mas "o povo, a religião, a classe inimiga a se eliminar". A passagem é da inteligência prática — que valoriza situações, calcula oportunidades, age segundo a necessidade — ao ideal abstrato que transforma todo conflito particular em cruzada ontológica. ¶ Esta dimensão redentiva, que cultiva a inimizade, está na base da restauração científica moderna, que se apoia sob um conflito implícito e nunca realizado entre leituras opostas da ideia da descoberta: uma cognoscível, legada duma parte à exuberante e variegada criatividade novamente anexada no politécnico medieval, e duma outra [parte] à ideia e à peculiar epistemologia hereditária, na qual são as hipóteses científicas que guiam a descoberta através da construção de modelos teóricos dos fenômenos reais, portanto, uma leitura concentrada precisamente sobre a investigação não na natureza em si, mas sim da relação entre homem e natureza; a outra pré-científica, com raízes obscuras e ramificadas nas raízes dos antigos impérios, concentrada, pelo contrário, sobre a descoberta como conquista, um arcaico termo militar que põe fim à intromissão da vontade do descobridor no ser do ente descoberto, destruindo a natureza deste último e reduzindo-o à própria imagem. Esta segunda leitura tem por fim subordinar a primeira a si, exaurindo progressivamente o significado, sem que, precisamente, haja alguma disputa explícita, e aquilo não obstante do fato da descoberta como conquista e da descoberta como cultivo, cognoscência e desenvolvimento orgânico colocarem-se em dois polos opostos.
Índice Antologia Jacques Camatte
2.2.2. Ideia de poder • Controle total
Talvez a causa duma crise neolítica (trauma de espécie, mas esta origem permanece conjuntural: uma hipótese retrospectiva para a leitura do salto ocorrido), a humanidade aprofundou sua separação da natureza: sempre menos ambientes a serem habitados, mas dificuldade de regular. Nasceram assim instrumentos de controle simbólico: divisão, métrica, soberania. Um novo poder central emerge como prótese contra a instabilidade da vivência: oferecendo-se como proteção da incerteza, vem interiorizado não só como necessidade, mas como constituição mesma da identidade separada. Toda forma de governo sucessiva trará esta pegada ancestral: busca ansiosa por uma inalcançável segurança absoluta como resposta ao temor.
Índice Antologia Ludwig von Bertalanffy, Cornelius Castoriadis
2.2.3. Egalité • Cancelamento da diferença
O desenvolvimento da tomada do movimento do valor — equivalente geral, moeda — induziu ao nascimento da ideia abstrata de igualdade entre os homens, entendida como negação a priori de [suas] diferenças qualitativas. Também do homem tudo deve poder ser mensurável. A relação direta, fundada sobre a concretude e portanto sobre a complexa gestão das diferenças (gestão feita de cooperação, complementaridade, conflito, cura) tornou-se suspeita. Colocaram-se assim as bases para a revogação das faculdades individuais e comunitárias em favor duma instituição superior, único regulador da ação, que substitui as relações por uma hipotética — porém fictícia — absoluta equivalência. A igualdade coincide assim com a igual subordinação de todas as instituições. Assim, a responsabilidade individual não age mais na relação com os outros humanos e com o organismo vivente, mas existe apenas direcionada ao Estado: o vínculo de proximidade é quebrado em favor duma condição de estranhamento na qual domina a in-diferença. ¶ O casal polar dos conceitos igualdade-diferença, no desenvolvimento emotivo e cognitivo progressivamente dominado pelo movimento do valor, passa pelo mesmo destino de muitos outros: paz-guerra, masculino-feminino, individualidade-comunidade, indiferença operativa-cargo e divisão do trabalho, ordem-caos. Os dois termos vêm dissociados (o oposto da simbologia ying-yang), hipostasiados e moralizados como bem e mal, ignorando a necessidade e a presença natural — dentro de seus limites estruturais, temporais, quantitativos, circunstanciais — da realidade que pretendem descrever, assim como a impossibilidade epistemológica de conectar-se à experiência do outro, substituída por uma projeção moral. É um deslize cognitivo com fortes consequências emotivas, que importa a denigrição sistemática de todas as coisas enquanto existentes. Sempre sobre a base do juízo temerário, mas se faz "como se". Toda diferença percebida transforma-se em injustiça a se eliminar, todo aparato cultural que assuma e gerencie a polaridade torna-se assim destrutível "à merci”. Tal deslize é fator propulsor e modus operandi permanente do processo abstrativo.
Índice Antologia Aristophánēs, Karl Marx
2.2.4. Vergonha prometéica
A vergonha prometéica nasce do confronto entre a imperfeição humana e a alegada perfeição da criação técnica. O homem envergonha-se da própria casualidade biológica de frente à projectualidade da máquina: da mancha de ser nascido ao invés de construído. ¶ Esta vergonha revela uma inversão fundamental: aquilo que é criação do homem é percebido como superior à realidade da vida. O objeto técnico torna-se assim modelo normativo. O homem interioriza os critérios da máquina: precisão, velocidade, repetibilidade, otimização.
Índice Antologia Günther Anders, Jean Baudrillard, Jacques Camatte
2.3. Antropomorfose: ideias que capturam e tornam-se operativas
Algumas ideias abstratas — divindade, Estado, propriedade fundiária, trabalho, capital, redenção — primeiro adquirem forma humana através de representações simbólicas: pinturas, esculturas, alegorias linguísticas que lhes dão rosto, nome e corpo. Sucessivamente capturam o ser humano real, que cessa de existir como sujeito autônomo e torna-se num possuído, encarnação viva da ideia: o proprietário de terras que se arruína na tentativa de conservar a terra creditada, o empreendedor que vive somente pela empresa, o missionário e o militante que se transformaram em máquinas da ideia da redenção, o sonhador que se faz instrumento dum ideal da Hierarquia originária, o banqueiro que faz da própria atividade fidutária um mandato de transformação econômica do mundo.
Índice Antologia Karl Marx, Fëdor Dostoevskij, Jacques Camatte
2.4. Ao início do processo: derivação abstrativa vs. padrões alternativos
A escolha neolítica não foi inevitável e nem universal. Por milênios duas opções conviveram: a sociedade sedentária que levava consigo a derivação abstrativa ao lado de povos que mantiveram formas de vida orgânicas. Estes últimos, progressivamente eliminados através de genocídios sistemáticos, sobreviveram de resto sempre menores até os nossos dias. Os dados que se seguem documentam isto quase à origem da bifurcação.
Instrumentos de controle:
• Calendários agrícolas rigidamente codificados (tábuas sumérias, Uruk III, 3.000
a.C.).
• Geometrização do espaço urbano (grelhas ortogonais em Mohenjo-Daro, 2.500 a.C.).
• Muros defensivos com função separativa (Jericó, 9.000 a.C.; espessura 3m, altura
5m).
• Taxonomia de espécies "útil-nocivo" (papiro egípcio de Memphis, 2.400 a.C.: 37 animais
danosos catalogados).
• Acúmulo de excedente (celeiros de Çatalhöyük, 6.000 a.C.: capacidade de 12 toneladas
vs. necessidade anual de 1,2 toneladas).
Padrões alternativos:
• Ausência de medição do tempo (povos San do Kalahari: atividade regulada pela lua/estação,
não horário).
• Acampamentos circulares sem geometria pré-determinada (etnografia Boscimani! Kung).
• Permeabilidade ambiental (Pigmeus Baka: espaços habitacionais sem barreiras físicas
ou conceituais).
• Relações não-antagonísticas com o não-humano (Warlpiri: a terra como sujeito relacional;
Nayaka: os animais como "pessoas").
• Economia de subsistência não-competitiva (Hadza: distribuição imediata sem acúmulo;
Batek: confinamento do estoque).
Fatos documentados:
• Hiper-complexidade e colapso (Çatalhöyük, 6.000 a.C.: densidade de 10.000 habitantes/km³
vs. epidemia óssea documentada).
• Falência ecológica (cidade de Harappa, 1.900 a.C.: estradas de salinização a Mohenjo-Daro).
• Adaptabilidade na crise (povos Axé durante o colapso Inca: adaptação florestal vs.
estruturas monumentais).
• Propriedade ritual (Hopi vs. Chaco Canyon: cerimônia da chuva flexível vs. irrigação
rígida).
Índice Antologia André Leroi-Gourhan
2.4.1. Catástrofe e violência originária • Uma hipótese
À raíz do salto neolítico haja talvez o pânico pela sobrevivência. Uma hipótese: uma ameaça real, quase universal — fome, predadores, epidemia —, de origem climática, geológica ou ecológica é sentida como ameaça de extinção e se faz detonadora daquela incapacidade de sustentar a realidade, legada à particular atitude reflexiva da espécie, que, em condições de normalidade, deixa uma potencialidade patológica latente. A resposta é a violência: explosão de conflitos intraespecíficos, extermínio dos animais, armas e técnicas de guerra. Para vencer, não bastam sozinhos: é necessário coordenação, hierarquia, comando. Assim nasce a primeira megamáquina, embrião do poder técnico e organizacional. Os acúmulos vêm a seguir, para garantir a sobrevivência; a métrica e os calendários chegam novamente depois, como formalização da temerosidade. Mas a ferida já deixou marca: o homem não confia mais na realidade sensível e é fascinado pela potência ilusória dos resultados da mutação. Daqui começa o louco desafio do destaque da natureza, de fazer-se um mundo próprio (mundus = limpo, não contaminado), totalmente controlado e protegido das ameaças, inimigos, predadores, perigos. Memória apagada que continua a operar mesmo quando a ameaça não existe mais, continuando a desenvolver as mesmas ideias e aspirações, até nossos dias ignorando as evidências dos rendimentos decrescentes e da contraprodutividade final desta operação, contrariamente estendendo o desafio à redesignação das mesmas bases biológicas humanas para abolir nossa corporeidade simbionte.
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3. O processo de abstração: componentes afins, em movimento e trama conflitual
Pode-se definir o processo de abstração não como um sujeito intencional, mas como um fenômeno emergente e retroativo, com uma só direção. Isto começa pelos gestos, escolhas e produção humana (broto da ideia: a abstração) que, uma vez ativados, começam a autonomizar-se e formar um sistema dotado de lógica interna própria e de força de condicionamento. O homem, a este ponto, se encontra interagindo não mais somente com a sua criação mental, mas com um ambiente por esta estruturado, que por sua vez plasma as suas escolhas sucessivas, num círculo que se auto-alimenta. ¶ O processo não é linear e nem monocêntrico: nasce de centros e componentes de irradiação diversos e autônomos, que propagam-se em formas desta maneira fortemente conflituais. Se o movimento, o desenvolvimento histórico, do capital foi certamente aquele mais dinâmico e no mais cativante e dominante, [então] os outros, a religião e o sistema técnico são mais antigos. A história registra interrupções, bloqueios parciais, contratempos, como após o colapso do Império Romano, mas também resistências e tentativas deliberadas, não somente do baixo, do atrasado e do preso (a China que bloqueou o uso militar da pólvora) que consentiram a repreensão da Gemeinwesen e dos processos vitais. Isto impediu leituras puramente lineares. Trata-se de campos de força, de densidade e de probabilidade, não é uma mecânica clássica. ¶ Uma análise geológica pode revelar uma continuidade de longo período sem implicar em necessidade: individuar uma origem não significa sempre prever êxito. Na ciência médica é prática cercar, e encontrar retrospectivamente, sinais precoces e remotos duma doença, como nos tumores ou no Alzheimer, não [é] pelo assunto determinístico que todas as formas patológicas são destinadas a evoluir: o sistema imunitário, o estilo de vida e a ação terapêutica, eles podem lentificar, bloquear, eliminar. Assim também e puramente para o processo de abstração: descrever a sua tendência própria não equivale a decretar-lhe inelutabilidade. ¶ O que foi dito foi a respeito do movimento geral do processo. A respeito dos seus componentes e suas fortes mas não sempre claras interações, devemos sobretudo ter cautela com a construção oitocentista do "dominante" (povo, cultura, espécie, estilo), construção adialética mais errônea do que útil; e junto [dela] não se faz capturar a abstração: os componentes não são somente componentes, são uma realidade diversa. É notável o exemplo dos "instrumentos" que encontram-se na caixa do carpinteiro: há um martelo, um alicate, uma serra, uma chave de fenda, um metro, um potinho para a cola, a cola, pregos e parafusos. ¶ Um exemplo concreto desta interação pode iluminar um pouco a complexa relação entre capital e sistema técnico. ¶ O capital — reduçamos e simplifiquemos — dispõe do dinheiro, mas para convertê-lo em valor deve aliar-se com o saber técnico, como acontece na [área da] saúde. Os banqueiros e os fundos financiam a pesquisa médica e farmacêutica; por sua vez, as guildas da saúde e dos pesquisadores, que fazem parte do sistema técnico, procuram por orientar o fluxo do dinheiro para os seus próprios projetos, onde misturam ambição, vocação e carreira. ¶ A mesma dinâmica se observa na engenharia e nas ciências aplicadas: cada campo tenta "trabalhar" no outro, mas o resultado não é um domínio estável. É uma rede de retroação. ¶ Na fase da crise geral do capital, a ciência tende a oferecer-lhe novos horizontes de motivação — projetos "passionais" que reenforçam a fé no progresso e na conquista do possível: Marte, a vida artificial, a mente digital. ¶ O capital fornece a promessa do valor, [e] a técnica aquela do funcionamento; juntos, mantendo o andamento do processo, mesmo quando a energia vital que o tinha gerado já é em parte exaurida. ¶ Entretanto, prossegue a desativação (vulgo corrupção) das guildas com a progressiva substituição das relações internas em troca de dinheiro. Todavia o enfraquecimento dos próprios subcomponentes termina por reforçar o sistema técnico enquanto tal.
Índice Antologia Ludwig Wittgenstein, Jacques Camatte
3.1. Religião
A religião, no sentido aqui relevante, é parte do complexo Estado-religião. Esta se manifesta em duas modalidades históricas principais, observáveis no arco eurasiático (com significantes analogias nas civilizações pré-colombianas). Uma religião constitutiva : o modelo originário, observável na Mesopotâmia, no Egito, e em seguida na Roma republicana e imperial. Nesta forma, a religião nasce como estrutura de legitimação do poder estatal, geometrizando o cosmo para refletir a ordem hierárquica terrena. O panteão divino é uma extensão da corte real; o ritual é um ato político de manutenção da ordem (Ma'at egípcia, vontade deles dos mesopotâmicos). É abstrativa por constituição, mas de suas abstrações sonha o fixo, a permanência. [Por outro lado,] Uma religião de captura : modelo que se afirma com o advento de movimentos com um forte núcleo anti-abstrativo, como o Budismo, o Cristianismo primitivo e o Taoísmo filosófico, como reações críticas à religião-Estado (Brahmanismo, Hebraísmo fariseu, Confucionismo). Tal núcleo originário seu — a acentuação sob a experiência direta, a crítica do valor e daquilo que é fixo, a abertura ao simples — constituía uma ameaça existencial ao Complexo. A sua sucessiva institucionalização foi uma obra de captura, sistematização e parcial neutralização deste núcleo não de todo apagado. ¶ Em ambos os casos, a religião-instituição se funda sob a promessa abstrata de restaurar ou garantir uma ordem perdida ou ameaçada. Constitutiva do processo de abstração mesmo, é todavia autônoma e possui um projeto próprio, nem sempre compatível com o movimento geral de abstração. ¶ Na religião podem conviver então, em tensão permanente, instâncias abstrativas — que naquela redentiva irrompem — e núcleos anti-abstrativos: em consequência, esta apresenta uma relação ambivalente com o processo de abstração, oscilando entre empurrá-lo ou guiá-lo e a tentativa de contê-lo.
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3.2. Estado
Na sua forma primeira o Estado surge através duma separação da comunidade que gera uma unidade superior (faraó, lugal, rei dos reis, etc.) que não representa a totalidade. Isso acontece no mesmo momento no qual se instaura o movimento do valor como processo de valorização. Ao mesmo tempo se opera uma antropomorfose da divindade e uma divinomorfose da unidade superior, e se instaura a religião. ¶ É o complexo Estado-religião que dá origem ao sistema técnico reunindo o "material humano" e dando-lhe uma disciplina organizativa, uma coerência operativa que permite-o a trabalhar sua dimensão mais tentada em precedência, a primeira megamáquina. ¶ A segunda da natureza da religião que o compõe, este complexo assume um cargo diferente nos confrontos do processo abstrativo, do qual o potencial desestruturante e de ameaça existencial tem frequentemente consciência. No caso das religiões não-redentivas, o complexo religião-Estado tenta indireitar e controlar as forças na origem do processo, pondo-se como katéchon, poder freiante. Na presença de religiões redentivas, o complexo, quando não promove diretamente o processo, reduz o cargo freiante à função de amortecedor, com o intuito de assegurar um desenvolvimento mais equilibrado. ¶ Uma digressão se impõe: efeitos retardando ou temporáriamente bloqueando um processo negativo não vão julgá-lo com suficiência enquanto não resolutivo — nem na medicina, nem na realidade histórica —, mas como possibilidade preciosa; o retardo, entretanto, pode abrir oportunidades imprevistas. Deve ser adicionado que a ação conservativa, para lá da teorização, implica muitas vezes na defesa duma vida social concreta e comunitária, ameaçada pelas formas mais agressivas e totalizantes de abstração. ¶ Sucessivamente se impõe uma segunda forma do Estado, determinada ao prosseguimento do movimento do valor, fenômeno que não pode ser reduzido exclusivamente ao âmbito econômico.
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3.2.1. Cidade
A cidade é a concretização espacial do Estado e do valor: um recinto que separa e organiza, geometriza o vivente, transforma o território em grade. As primeiras cidades nasceram como dispositivos simultâneos de proteção, potência e acumulação: muros potentes, celeiros centrais, templos, quartéis. ¶ A cidade, desde o início, porta consigo a promessa implícita de imortalidade: permanece para além dos corpos, além das estações, oferece uma segunda natureza mais estável que a natureza mesma. ¶ Define-se pela oposição ao campo: se não com desprezo pelos agricultores, sempre com formas de distanciamento que sinalizam a superioridade evolutiva, cultural e moral [em relação a estes].
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3.2.1.1. Morte da cidade
A cidade morre não por um colapso imprevisto, mas pela dissolução da sua forma compacta: a explosão das fronteiras, o sprawl infinito, a cidade dividida. O centro perde o sentido; o urbano se desmaterializa nos fluxos digitais (smart-working, e-commerce, soberania distribuída). ¶ A sua morte coincide com o cumprimento do seu escopo: a maioria da humanidade é agora urbanizada, a separação da vivência é total. Aquilo que a cidade prometia — segurança, ordem, durabilidade — se interioriza e se difunde por todo lugar: não mais muros visíveis, mas redes invisíveis; não mais quadrados, mas plataformas.
Índice Antologia
3.2.2. Morte do Estado
Também para o Estado, mais que uma morte, há uma progressiva dissolução funcional: no seu desenvolvimento extremo, o Estado é sempre controlado pelo Capital e pelo Sistema técnico, e esvaziado com a cessão de funções e prerrogativas a organizações "autônomas" ou supraestatais. Entre leis, normas e controle que crescem indefinidamente, o real poder político se dissolve.
Índice Antologia
3.3. Propriedade privada
A ideia da propriedade privada é bem outra que a da posse exclusiva — presente também na natureza e sempre concreta, limitada e circunstancial —, e porta-se por trás uma, muitas vezes irreal, ideia de separação total do objeto de seu contexto de existência (é emblemático o caso da propriedade da terra), e aquela [outra ideia], entretanto ilusória, de perpetuidade: uma forma traduzida de imortalidade.
Índice Antologia Karl Marx, Costantinos Kavafis
3.3.1. Da propriedade ao aluguel • Morte da propriedade privada
A propriedade é superada pelo seu esvaziamento funcional. A posse torna-se gestão temporária, uso condicionado, acesso a pagamento. O objeto não [lhe] pertence mais, mas circula num sistema fechado de disponibilidade controlada.
Índice Antologia
3.4. Valor
O valor é aquilo que consente o confronto àquilo que é incomparável. Toda coisa é quantificada segundo um parâmetro único. O valor dissolve qualidade, contexto e significado, reduzindo o ser a uma cifra.
Índice Antologia Karl Marx, Carl Schmitt, Jacques Camatte
3.4.1. Valor de uso • Valor de troca
O conceito marxiano de valor de uso, já dos anos setenta do século passado, é mostrado não ser uma propriedade natural da realidade mercantilizada, mas uma construção semelhante ao valor de troca: são formas complementares da mesma lógica de equivalência. Ambos operam uma redução da realidade a funções mensuráveis, separando-a da relação viva qualitativa.
Índice Antologia Guy Debord, Alfred Sohn-Rethel, Jean Baudrillard, Alasdair MacIntyre, Jacques Camatte, Robert Kurz
3.4.2. Mercadoria
A mercadoria é qualquer coisa que, extraída e abstraída de seu contexto natural, pode ser vendida e comprada. Solo, objetos, animais, homens, prestações, trabalho, ideias, direitos, seja por inteiro ou por parte, seja por tempo ilimitado ou definido. Tudo pode ser vendido.
Índice Antologia Fredy Perlman, Alfred Sohn-Rethel, Jaime Semprun, Marco Iannucci
3.4.3. Alienação
Dinâmica pela qual aquilo que é próprio torna-se estranho e mesmo hostil. Os produtos da atividade humana — objetos, relações sociais, formas organizativas — se autonomizam, se põem como potências separadas e dominantes. Aquilo que nascia como extensão de nossa capacidade transforma-se em espoliação: as coisas assumem o cargo de sujeitos, as pessoas tornam-se em coisas. Essa derrubada gera uma figura hostil ao seu criador e um mecanismo, muitas vezes sem conhecimento, que inverte o escopo inicial, armadilhando os homens e mulheres num destino que queriam evitar.
Índice Antologia Günther Anders, Giorgio Agamben, Jacques Camatte
3.4.4. Mercadoria excluída • Equivalente geral
Para poder medir e confrontar todas as mercadorias, uma destas deve ser subtraída do comércio ordinário e elevada a métrica universal, a equivalente geral. Assim ela torna-se no dinheiro ele próprio cessando de ser uma mercadoria entre outras: a sua exclusão a transforma em representante de todas as mercadorias possíveis. ¶ Este mecanismo — exclusão que gera eleição — não opera somente na economia. Os conceitos abstratos operam como equivalentes gerais do pensamento: o "Homem" dos direitos universais pressupõe a exclusão de homens concretos — mulheres, escravos, bárbaros, colonizados — para poder colocar-se como seu representante ideal.
Índice Antologia Jacques Camatte
3.5. Dinheiro
O dinheiro é a encarnação do valor. É métrica, meio de troca, reserva, potência: poder de obter qualquer coisa que seja tornada mercadoria. É móvel, neutro, impessoal e, na forma inicial, possui a durabilidade infinita do ouro: uma abstração tornada concreta, que pode ser portada no bolso.
Índice Antologia Karl Marx, Georg Simmel, Alfred Sohn-Rethel
3.5.1. Empréstimo • Crédito • Débito • Seguro
O crédito antecipa o valor futuro, o débito hipoteca o tempo a vir, o seguro monetiza a temerosidade do acaso. Juntamente, estendem o domínio do valor à dimensão temporal, fabricando a ilusão dum controle total sob o devir.
Índice Antologia Karl Marx, Jacques Camatte
3.5.2. Imortalidade (procurada no dinheiro)
O valor promete permanência. Conserva, acumula, resiste ao tempo. Nisto se projeta o desejo de não morrer. Harpagon sonha em durar tanto quanto seus tesouros, a tesourização encontra naquela [forma] do ouro a sua própria imortalidade.
Índice Antologia Karl Marx
3.6. Capital
O capital é o valor que se valoriza: não uma coisa, mas uma relação social em movimento. A sua lógica é o crescimento ilimitado.
Índice Antologia Jacques Camatte, Marco Iannucci
3.6.1. Crematística
A acumulação ilimitada de riqueza por si mesma, sem escopo de uso, define a lógica crematória. O fim se dissolve. Somente o crescimento conta. O excesso é virtude.
Índice Antologia Aristotélēs
3.6.2. Mais-valor
O mais-valor é parte da produção que excede o valor restituído ao trabalhador e as despesas gerais, e que é absorvido pelo capital. É o motor da acumulação. ¶ É representado pelo pequeno ápice ao término da expressão D-M-D'. Pequeno, mas como muitos notaram ele representa a mística redentiva inteira: o Dinheiro, abstração pura, aprisionando-se na matéria da Mercadoria, exposta ao inferno da desvalorização, é então redimida tornando o Dinheiro acrescentado no Pleroma espiritual.
Índice Antologia Jean Vioulac, Stephen Smith
3.6.3. Autonomização • Sujeito automático
O capital torna-se autônomo: um sujeito automático. É um movimento autossustentado, como uma turbina com a própria energia, massa e direção. Convém precisar. Por capital entende-se o movimento e o acúmulo de potência fiduciária gerada pelos ciclos de D-M-D', todavia, este momento, feito de relações sociais e conseguintes imagens interiorizadas — eu sinto-me "como se" fosse forte e feliz enquanto rico porque todos me vêem assim — é também uma ideia: nasce do homem, e todavia, como muitas ideias, possui a capacidade de capturá-lo, de assumir o controle dele: é a antropomorfose. Fenomenológicamente, o homem possui em fato a singular faculdade de poder ser capturado pelas próprias ideias. Portanto é possível definir o capital como sujeito, como uma turbina com sua lógica de movimento, incluindo em tal "sujeito" também a vontade e a inteligência real dos homens àquela ideia capturante — uma turbina muito particular. ¶ O precisar vale por todos os componentes que se autonomizam: o uso do termo antropomorfose a propósito do capital não é pois metafísica, mas necessidade de descrever a intenção do conjunto da atividade humana envolvida ativamente na dinâmica da ideia. Os "sonhos" do valor, do capital e semelhantes foram, e ainda são, efetivamente sonhados por homens — poder e segurança sem limites, imortalidade monumentum aere perennius, etc. — e a literatura não conserva as marcas.
Índice Antologia Joseph de Maistre, Karl Marx, Ludwig Klages, André Leroi-Gourhan, Jacques Camatte, Jean Vioulac
3.6.4. A mercadoria do capital
Na prevalecência do capital a mercadoria troca de estatuto: não deve mais durar, mas circular. A durabilidade, que por um tempo acrescentava ao valor, embora permanecendo em nicho e práticas residuais, torna-se um obstáculo e é desencorajada de modos diversos, também normativos. Todo objeto é projetado para ser superado forçando-lhe a obsolescência, assim reativando continuamente o ciclo do capital.
Índice Antologia Giorgio Cesarano & Gianni Collu, Jacques Camatte
3.6.5. Imortalidade (procurada no capital)
A imortalidade procurada, na época da prevalecência da ideia do valor, na durabilidade do ouro, transfere-se à perenidade da circulação do capital.
Índice Antologia Karl Marx, Jacques Camatte
3.6.6. Morte do capital
Como o capital está dissolvendo o Estado e esvaziando o conceito do valor — porque pressupõe uma persistência, enquanto tal hostil à circulação —, ele morre lentamente quando consegue valorizar-se cada vez menos. Todavia, o capital não é o processo de abstração: tal processo é o seu modus operandi continuado, guiado pelas interações dinâmicas entre o capital e o sistema técnico. Estas forças modificam-se mútuamente através do conflito e da transformação recíproca, uma dança complexa e não linear similar a um intrincado passo duplo, mas onde nenhum dos dois sabe quem está dirigindo. O sistema técnico, com a sua lógica de organização, automação e substituição, modela sempre mais a trajetória da abstração, estendendo o seu porte a cada célula do ser humano, enquanto o capital vai alimentar a sua expansão conquistando a valorização em toda troca, relação, cooperação natural e humana: da amamentação, à preparação duma refeição em família, ao jogo dos corpos e à intimidade dum encontro, a um trekking entre amigos, à própria relação genitor-filho, em movimento D-M-D', tudo deve tornar-se em trabalho assalariado. ¶ Não põe-se aqui uma teoria completa, mas sim a constatação de marcas e sintomas, visíveis àquele que observa: de que por si o processo dirige-se à extinção da espécie que o colocou em funcionamento. A menos que haja uma improvável reação por parte da espécie mesma. Improvável — não se vêem sinais disso, a menos que fracos —, mas não impossível: os reais mecanismos de geração e persistência da espécie são, no fundo, desconhecidos. Às vezes as reações são geradas de situações extremas, da percepção de riscos reais de extinção, como parece ter acontecido na passagem ao neolítico quando a humanidade, frente a uma crise ambiental profunda, obrou uma transformação dos próprios modos de vida — acelerando dramaticamente o processo de abstração.
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3.7. O sistema técnico (organização, técnica, ciência, medicina) sobre as forças produtivas
Outro grande componente do processo abstrativo, agora em primeiro plano: a organização que neutraliza a subjetividade, a máquina que substitui o humano, a ciência reduzida a poder técnico, o tempo transformado em grade operacional. ¶ Cenário histórico: cinco mil anos atrás, no considerado Modo de produção asiático (ou hidráulico), o sistema técnico propunha, através de sua antropomorfose — engenheiros, arquitetos, matemáticos, escultores — tumbas colossais para movimentar a megamáquina; quatro mil anos depois, no outono do Medievo, ao final do mesmo, ofereceu-lhe as catedrais. ¶ Esclarecimento: a técnica enquanto tal é também presente em outros animais como forma de atividade. Aquilo que se trata aqui é o seu ser subsumido em qualquer coisa de autonomizado, o que chamamos de sistema técnico, com uma lógica própria idealizada e interiorizada, num feedback positivo e auto-expansivo. Também neste campo da história emerge, e há alguns sinais também em nichos atuais, a tentativa de reconduzí-la nos seus ambientes naturais: é sempre uma questão de limiaridade.
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3.7.1. Organização • Burocracia
A organização produz estruturas que neutralizam a subjetividade e padronizam a operatividade. Toda atividade é categorizada em procedimentos abstratos, regulados por critérios impessoais. Com a burocracia, a forma organizativa torna-se dominante. A organização aspira a um crescimento ilimitado que antecipa aquele do capital.
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3.7.2. Megamáquina
A megamáquina é a totalidade integrada de homens e instrumentos num sistema unificado. Não é uma soma de máquinas, mas uma totalidade que engloba corpos, regras, fluxos, objetivos. Todo elemento lhe é subordinado. ¶ Talvez surgido da organização de grandes ritos religiosos, e obra do Estado em sua primeira forma, reunindo o "material humano" e dando-lhe uma disciplina organizativa que permitia-o a operar suas dimensões mais tentadas em precedência — o taylorismo não nasce com o capital. Se deve esta invenção ao fato de que, cinco mil anos antes, realizaram-se megamáquinas de guerra como a falange e obras de engenharia que, pela técnica da produção em série, padronização e projetação meticulosa, competem com aquelas de hoje. ¶ Na época medieval, o monastério beneditino representa uma particular forma de renascimento.
Índice Antologia Lewis Mumford, Jaime Semprun
3.7.3. O tempo abstrato
O tempo vivido passa a ser substituído por uma temporalidade mensurável, homogênea, cumulativa. O tempo abstrato não é uma experiência, mas uma grade operativa. Todo evento deve colocar-se nesta estrutura uniforme e sem qualidade.
Índice Antologia Karl Marx, Guy Debord, Jacques Camatte & Gianni Collu, Jacques Camatte
3.7.4. A máquina
A máquina decompõe, repete, automatiza, torna supérflua a subjetividade. Substitui a atividade humana com as suas operações. A automatização é a forma completa da abstração técnica, na qual o ser humano torna-se no terminal dum dispositivo que o supera e o sobrecarrega, derrubando o princípio de utilidade da técnica pelo da utilidade para a técnica.
Índice Antologia Karl Marx, Jean Baudrillard
3.7.5. A ciência abstrata
A ciência moderna não descreve mais uma realidade a ser habitada, mas constrói modelos formalizados de funcionamento, fabricando um mundo cada vez mais incompreensível. Se separa do trabalho vivo para tornar-se propriedade do capital: as funções intelectuais da produção concentram-se contra o operário, transformando-se numa potência produtiva independente do trabalho ele mesmo. ¶ O objeto científico é reduzido a quantidade, leis, algoritmos. O mundo torna-se num laboratório e numa maneira de desfrutar: a pesquisa não procura mais a essência das coisas, mas a sua utilidade secreta. A cognoscência se converte em poder técnico, compartilhando com a economia mercantil a mesma lógica quantitativa. E a conversão da realidade inteira num conjunto de procedimentos parametrizados e controlados termina por destruir a mesma ciência, tornando-a em mera intervenção proativa e sem pensamento.
Índice Antologia Karl Marx, Günther Anders, Alfred Sohn-Rethel
3.7.6. Próteses e terapêutica
As próteses, comuns na natureza como auxílios operativos, hoje tendem a substituir toda a faculdade humana. Aquilo que era desenvolvido diretamente pelo corpo e pela mente é substituído por instrumentos de mediação. ¶ O ápice atual é a externalização das funções cognitivas em dispositivos artificiais de otimização estatística, aos quais é atribuído poder preditivo (IA). Assim a disposição e a atividade terapêutica naturais autonomizam-se em sistemas com lógica própria, justificados por uma métrica distorcida e por aquela antiga inclinação a querer o nada ao invés de não querer, o que endireita o cálculo custo-benefício de modo sempre mais funcional ao sistema e não ao homem.
Índice Antologia Marcus Valerius Martialis, Karl Marx, Günther Anders, Stefano Isola
3.7.7. Imortalidade (procurada no sistema técnico)
Ver a máquina somente como capital fixo é como ver a broca como puro recipiente: se perde qualquer coisa, força muito. A máquina é sim instrumento do capital por extrair mais-valor; mas faz parte do sistema técnico. Em seu projeto, em sua lógica intrínseca de eficiência, repetibilidade e automação, reside uma instância não redutível à valorização. Servindo a produzir outras máquinas, alimenta um processo de auto-potenciamento do sistema técnico ele mesmo, permitindo e aproximando o sonho do automático autorreprodutor — figura da imortalidade terrestre alcançável pela substituição: a lógica da loucura.
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4. Modus operandi do processo
Do processo de abstração, que se realiza através da dinâmica entrelaçada de seus componentes essenciais — cada um dotado dum nível próprio de autonomização —, é útil relevar entre as modalidades centrais, que podem ser identificadas respectivamente: o empurrão ideal do motor redentivo, o mecanismo da combinatória e a subsunção que alimenta o todo.
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4.1. Motor redentivo
O terreno sob o qual se desenvolve o processo é preparado pela crítica do estado presente das coisas, fundado sob ideias abstratas de origem redentiva, tornadas também em ética redentiva, e então atuantes na história do sujeito e forças coletivas através da antropomorfose. É o mecanismo que permitiu apresentar o imperialismo como "civilização" e a destruição das práticas comunitárias como "progresso". O fenômeno opera seja no longo tempo da continuidade ou nos períodos de crise (guerras, revoluções, epidemias, caridade). ¶ À crítica histórica do presente se é por sua vez acompanhado o puro fascínio da redenção, também liberada da figura messiânica que torna-se o "outro", o mesmo processo. É o caso do aceleracionismo, que propõe intensificar deliberadamente o processo — automação, subsunção técnica ilimitada, dissolução das formas vitais. É o mecanismo ao extremo: não se limita a justificar a destruição como progresso, mas a persegue ativamente como meio de salvação.
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4.2. Combinatória
Termo de origem matemática. Neste caso a combinatória é o mecanismo através do qual todo aspecto da vida — prática, cognoscência, gestos, emoções, relações — é decomposto em unidade mínima, separado, simplificado e rendido disponível para uma reorganização infinita, um cálculo combinatório. Todo elemento perde seu enraizamento, seu sentido próprio, sua colocação originária: torna-se módulo móvel, adaptável, trocável. ¶ No curso dum movimento secular tudo é progressivamente desagregado e recombinado. O fim é a compatibilidade operativa: aquilo que conta é que tudo seja compatível, flexível, pronto a interfaciar-se. A combinatória é a abstração operante no cotidiano. ¶ A realidade aparece agora como um repertório técnico de possibilidades intercambiáveis: a sexualidade, a linguagem, a cura, o aprender, o imaginar — tudo pode ser combinado. ¶ Esta lógica avança também à língua comum: sob o plano linguístico, as palavras de plástico operam como tijolinhos de Lego, para converter a língua comum num jogo combinatório privado de significado mas gerível pela máquina.
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4.3. Subsunção
Todo componente do processo de abstração e seus subcomponentes — também aqueles não mencionados — subsume no seu campo: engloba qualquer coisa que era imediato e próprio do homem e da natureza dada numa forma substutiva. ¶ O capital subsume a Gemeinwesen, transformando as relações diretas em mediações monetárias: da autossuficiência comunitária ao supermercado, da amamentação nos seios ao leite artificial, da amizade ao networking. ¶ O sistema técnico subsume a atividade mesma, substituindo os processos humanos e naturais com dispositivos: do domínio da olearia à máquina CNC, da orientação ao GPS, do nascimento à reprodução assistida, da respiração aos ventiladores. ¶ A religião subsume o sagrado, traduzindo o contato com o inefável — primeiro legado por relações diretas com o sábio, com o vidente e com o xamã — em doutrinas e rituais codificados. ¶ O Estado subsume o processo decisivo comunitário com sujeitos de circunstância àquele próprio duma estrutura que se quer imutável e reprodutível com formas e cargos fixos e em gêneros transmissíveis.
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4.3.1 Subsunção cada vez mais profunda do trabalho
O capital apropria-se inicialmente de situações de trabalho pré-existentes — o artesão que torna-se assalariado na manufatura mantendo o seu modo de trabalhar e portanto o comando sob execução — que restam formalmente invariadas mas são subordinadas à lógica capitalista: é um domínio efetivo, mas parcial, que impropriamente é também chamado "subsunção formal" [ou dominação formal, como é recorrente em traduções brasileiras] — o capital cresce, reproduzindo-se sob escala constantemente alargada, subsume relações comunitárias e humanas transformando-as em mediações monetárias, mas não pode subsumir a atividade e nem os processos naturais, capacidade própria do sistema técnico. Sucessivamente o trabalho é tecnicamente reorganizado segundo critérios de produtividade e economia, a combinatória das funções se aprofunda, o saber-fazer é separado do trabalhador e feito em força autônoma nas mãos do capital. ¶ O operário torna-se parcial, e o seu saber, gradualmente transformado e absorvido no sistema técnico, se faz externo opondo-se ao trabalhador como poder que o domina. ¶ O processo é contínuo: toda atividade — do operar humano ao biológico — é gradualmente subsumida no sistema técnico sob exigência da lógica capitalista. O sonho do capital é a expansão ilimitada e, financiando e corrompendo, a persegue promovendo tudo aquilo que consente ou promete a valorização; neste processo alimenta o sistema técnico, que historicamente o precedeu e cujo sonho é a substituição ilimitada de todo o dado: aquilo que é humano e natural.
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4.3.2. Extensão da subsunção ao tempo livre, à sociedade, ao corpo
O domínio do capital se aprofunda quando a lógica da valorização se estende para além do tempo de trabalho, colonizando a existência inteira: tempo livre, vida social, comunicação, linguagem e corpo. O tempo é reestruturado: o tempo livre torna-se tempo de consumo, e o consumo mesmo é feito função produtiva. As tecnologias digitais, a automação e o controle difuso aceleram o processo: faculdades mentais e afetivas, atenção, palavra e relação são incorporadas no sistema técnico e postas ao trabalho. Não é mais somente o trabalho manual a tornar-se disponível, mas a potência expressiva e sensível do indivíduo. O corpo, modelado pela eficiência e pela saúde normada, é por sua vez posto ao valor. Assim a distinção entre produção e vida se dissolve: a sociedade inteira torna-se terreno da valorização, a condição proletária se generaliza a toda a população e a técnica começa a submeter a vida inteira.
Índice Antologia Jacques Camatte & Gianni Collu, Jacques Camatte, Giorgio Cesarano & Gianni Collu, Jean Baudrillard
5. Resultados e fim do processo
Resultado cujo tende o processo: substituição progressiva da comunidade humana, de toda relação e atividade, [pondo] fim aos processos biológicos (exemplos atuais: engenharia genética, próteses, automação de funções corpóreas e reprodutivas), do homem ele mesmo e da natureza, com sistemas abstratos e objetos técnicos — produtos, não sujeitos à vergonha prometéica que empurra o homem a preferir a sua criação à própria imperfeição biológica. Não um projeto deliberado, mas uma lógica imanente dum movimento que, se não preso, procede ao invés à autodestruição da espécie que o gerou.
Índice Antologia Ludwig Klages, Jean Baudrillard
5.1. Gemeinwesen
A comunidade (Gemeinwesen ) é o ambiente que nutre o homem: uma rede de relações vivas que liga os seres humanos uns aos outros, à terra, aos animais, aos ciclos naturais, à nutrição, à cura, à linguagem, aos ritmos da vida. Não é um ideal a ser restaurado, mas uma realidade elementar, que fez da vida humana possível por dezenas de milhares de anos. ¶ As testemunhas histórica e antropológica não demonstram a variedade concreta, mas utópica. A abstração apaga pouco a pouco a possibilidade mesma do "ser-com": a perda da comunidade é também perda da presença compartilhada, da certeza do próprio posicionamento. Desvanesce assim a realidade da felicidade terrestre — que, para Epicuro, é fundada sob a amizade, forma elementar, durável e recíproca de relação. ¶ Desvanesce, [mas] não desapareceu: a Gemeinwesen é o ser-comum do homem, uma dimensão que faz parte da sua natureza; dimensão experiencial, corpórea, tátil, mental, empática, que pouco a pouco se perde e aumenta a loucura. Perda de tudo: extinção.
Índice Antologia Karl Marx, Jacques Camatte
5.1.2. A grande comunidade orgânica e cósmica
A comunidade inclui a natureza, a humanidade, a humanidade vivente, o cosmo. Hoje fica cada vez mais claro que o homem ele mesmo é um agregado simbionte, não somente o microbiota: acaba no coração da própria célula eucarionte. Mas marcar confins precisos nesta continuidade vivente é impossível: onde termina o indivíduo e começa o ambiente? A ideia mesma do indivíduo autônomo contradiz a nossa constituição simbiótica. Não se conhece separação entre objeto e ambiente, entre humano e não humano.
Índice Antologia Pëtr Kropotkin, Marco Iannucci
5.2. Supressão e substituição da comunidade • Comunidade material
A Gemeinwesen é decomposta, substituída. O capital se faz comunidade material: todo aspecto da subsistência torna-se mercadoria, acessível somente através do dinheiro. O pão, o leite, as vestimentas, a cura, até a água — tudo requer mediação monetária.
Índice Antologia Karl Marx, Jacques Camatte & Gianni Collu, Jacques Camatte, Marco Iannucci
5.3. Supressão e substituição do homem
O ser humano resulta cada vez mais obsoleto. A subjetividade é convertida em modo operativo, o corpo em interface, a identidade em perfil. O indivíduo torna-se num resíduo funcional, "um aparelho antiquado de multiplicação do capital", destinado a ser desativado. Seguem a obsolescência declarada — na qual milhões de vidas resultam "não mais necessárias" — e a substituição programada, mediante automação, inteligência artificial e engenharia genética. ¶ É uma desativação técnica, apresentada como melhoramento (como acontece com a progressiva substituição de funções vitais por parte de instrumentos automatizados).
Índice Antologia Gustav Janouch, Armand Robin, Amadeo Bordiga, Roberto Pecchioli
5.4. Supressão e substituição da natureza
A natureza é degradada a recurso, o ambiente a objeto técnico. Não possui mais sentido em si, mas somente função instrumental: a realidade vivente é substituída por ambientes artificiais e mineralizada: reduzida a material inerte, asfaltada, cementificada, transformada numa pedreira a céu aberto.
Índice Antologia Ludwig Klages
Pós-escrito
"Não nos esquecemos que todo o tempo é abençoado, inclusive o nosso, aquele cujo foi dado o viver." Ivan Ilich (tradição oral).
¶¶
"A morte não é nada para nós, porque quando somos nós não há ela, e quando há ela não somos mais nós." Epicuro (carta a Meneceu).
Então a morte não vence mais: a morte não é um fato da vida. E enquanto respirarmos
ainda haverá presença e alegria. Como em todo processo vital, também naquele comprometido
pela doença, o organismo mantém funções vitais fundamentais. O tumor não gera um coração
tumoroso, desfruta daquele são. Não cria um sistema circulatório próprio, parasita
aquele existente: pode destruí-lo, [mas] não substituí-lo. Acaba por último a vida,
que por mais que desgastada, continua a ser vida. Assim é a Gemeinwesen, o ser-comum, que é constitutiva do ser humano: a sua — possível — completa extinção
significaria a extinção da espécie. ¶ Um diagnóstico compatível com o tumor em seu
quarto estágio — por conhecer a possibilidade, fraquíssima porém real, duma derrubada
— impõe ao que diagnostica, se deve comunicá-lo, de reconduzir o êxito provável entre
aquele certo de toda forma de vida, singular ou coletiva, incluindo a própria. E de
indicar a via da aceitação como possibilidade real e presente de serenidade consciente
e ativa. A aceitação é ao mesmo tempo perdida — de toda ilusão redentiva e portanto
da armadilha a que se prende — e ganha: a restauração do acesso à naturalidade, à
presença tangível e corpórea; e é, de por si, já indicando, iniciando e sustentando
a desejável — improvável, pois vêem-se somente fracos indícios como aqueles do cisma
cognitivo e a impensada resistência durante a pandemia, mas não impossível — reação
da espécie.
Índice Antologia Ludwig Wittgenstein, Jacques Camatte
So wird der Sinn, je mehr er sich selber sucht,
Aus dunkler Haft die Seele geführt zur Welt.
Vollbringe, was du mußt; es ist schon
Immer vollbracht, und du tust nur Antwort.
Konrad Weiss
Como o sentido, quanto mais este procura a si mesmo,
[assim] a alma é conduzida ao mundo pela prisão obscura.
Faça aquilo que deve; é já
de sempre feito, e tu não faz mais do que responder.
Firenze 30 novembre 2025
Índice
Autocomentário
A escolha inicial de tornar orgânico, na forma de teoria explícita, resultados precedentes impôs — e junto a isso sugeriu — outras quatro [escolhas]: a generalização do conceito de abstração real; a aceitação teórica do sistema técnico como componente autônomo, ao par do capital, no interior dum processo mais vasto; a individuação da ideia da redenção terrestre como um dos motores principais; e a definição das "religiões agostinianas". ¶ Todo o resto já estava, em grande parte, nos autores citados na Premissa e sobretudo em Jacques Camatte. ¶ Dele o conceito de doença da espécie ("especiose") e do seu aspecto individual ("ontose"); a sua recuperação forte do conceito demartiniano de "presença" — fértil releitura do Dasein heideggeriano — que ele precisa com o conseguinte "posicionamento"; suas, infinitas, muitas das conclusões do Pós-escrito, a partir da fórmula "Contra toda espera".
1) Uma teoria explícita
A MTAP viu como seu dever (Vollbringe, was du mußt; es ist schon / Immer vollbracht, und du tust nur Antwort. ) aquele de selecionar, numa massa secular de profundas reflexões sobre o devir humano, uma série de evidências e propostas teóricas, compondo-lhe um quadro coerente. A operação requeriu o enfraquecimento de assunções fortes presentes nas propostas originais, assim isolando o núcleo mais geral e coerente que permanece após a redução: dos autores mencionados na premissa não se quer fazer comparar aqui o "pensamento", mas alguns resultados cruciais ("O pensamento de X", "O pensamento de Y", "O pensamento de Z antes/depois da guinada que levou...", construções radicalmente inconsistentes e propriamente bias cognitivo, embora de uso recorrente. O pensamento é fugaz, um fogo, e não um cristal: oscila, muda, se contradiz). O quadro surgido é informado pela visão do Século XX da ciência, da medicina e da engenharia: disciplinas que se dão por um operar descontado e escolhido num campo da realidade um tanto obscuro — sobre a base de evidências parciais, dados faltantes ou aproximados, cognições probabilísticas e regulamentos operativos —, construindo modelos raramente casuais no sentido clássico. ¶ A forma teórica explícita e assertiva — e portanto bem exposta a críticas e emendamentos — é, sim, também um convite a quem reflete sobre estes temas e tantos outros.
2) A abstração real
É estendida pela característica do dinheiro (Sohn-Rethel) a uma família mais ampla de formas: escrita alfabética, estradas imperiais (Mumford), Estado, mídia (McLuhan), smartphone e outras formas análogas. Objetos e estruturas que, natos do agir humano, retroagiram sob isso conformando-o a modalidades abstratas.
3) O sistema técnico
O sublinhar da autonomia do sistema técnico permite integrar ideias e linhas de pesquisa de fato evitadas e incompreendidas por muito tempo: das intuições de Tocqueville e de Donoso Cortés aos resultados maduros de Mumford, de Heidegger, de Eluul e — sob declive organizativo-burocrático — de Bruno Rizzi. A teoria tenta assim harmonizar estes contributos com a ideia marxiana de subsunção, redefinindo porém o sujeito e o âmbito. ¶ Em Marx (talvez não de todo livre de esquemas religiosos inconscientes: um Deus-único capital e um messias proletariado) o capital é o único sujeito dominante e subsume tudo. ¶ A MTAP propõe mais sujeitos dominantes, de fato todos os componentes do processo subsumem faculdades e atividades correspondentes à sua lógica específica. ¶ A respeito da diferença, crucial, entre técnica e sistema técnico, o texto já se faz explícito, nas suas tentativas de recondução da técnica às suas limiares naturais, outras ao caso chinês que menciona, se lembrarmos o episódio pliniano de Tibério, que fez destruir a oficina do inventor do vidro inquebrável, e a prática Amish contemporânea de valorização comunitária dos instrumentos técnicos.
4) A redenção terrestre
Voegelin leu a modernidade como o renascimento da gnose antiga: o homem que quer refazer o mundo, transformar a imanência em salvação, construir o paraíso na terra e criar o inferno totalitário. No seu esquema a gnose se opõe ao cristianismo. Esta leitura, por um lado, não tem em conta as linhas contemplativas, de fuga do mundo, e anti-abstrativas presentes na gnose (não somente Simone Weil), por outro, ignora o núcleo gnóstico-redentivo operante no cristianismo paulino-giovano [de Paulo e João] e sobretudo em Agostinho. ¶ A MTAP, redefinindo esta ideia matriz — da gnose à redenção terrestre — ontem resultados explicativos maiores com menores reduções factuais.
5) As religiões agostinianas
A MTAP identifica como religiões agostinianas aquela família de cristianismos — catolicismo em sua práxis dominante (embora com núcleo anti-abstrativo: tomismo da natureza professora e do prazer natural, franciscanismo, correntes da mística apofática de Diógenes Aeropagita a Mestre Eckhart, [e a] primeira companhia de Jesus), luteranismo, calvinismo — que compartilham: a criação natural a ser redimida; a antropologia pessimista: natureza humana corrupta, vontade impotente; desprezo pela natureza humana: o corpo como um fardo; ênfase sob a graça como poder externo que redime ao interno. Assim como a evasão, mais ou menos profunda, dos elementos anti-abstrativos da mensagem evangélica: abertura ao Simples ("Guarda-te os lírios do campo..."), crítica do ativismo ("Marta, Marta, tu te preocupas..."); crítica do valor ("Gratuitamente vós recebeis, gratuitamente dais"...) e do acúmulo ("Não acumulai por vossos tesouros sobre a Terra..."), escandaloso acolhimento das crianças ("se não tornarem-se como..."). O protestantismo não é uma ruptura, mas uma radicalização: Lutero e Calvino liquidaram abertamente resíduos evangélicos (não por acaso caçando as crianças das igrejas) e elevando Agostinho às consequências mais extremas. ¶ A tese weberiana sob a relação entre o espírito capitalista e a ética protestante — o trabalho como vocação, o ascetismo mundano como instrumento de graça, a ordem racional como expressão da fé — faz conexões reais, apresentando todavia uma dificuldade que a definição de religiões agostinianas permite de se superar: implicava uma descontinuidade histórica artificial, uma jaula de dados já instalados em questões do trabalho de Sombart e Fanfani, que tinham mostrado como a racionalidade econômica, a contabilidade e a acumulação eram operativos séculos antes da Reforma (1517).
Estudos recentes talvez corroborantes: o gargalo do cromossoma Y
Uma pesquisa genética recente (apresentada a partir de 2015, súbitamente considerada relevante e agora consolidada no ambiente especialístico, ainda que pouco notada pelos de fora) documenta, na época neolítica (7.000-5.000 anos atrás), uma drástica redução do cromossoma Y, enquanto a linha feminina permaneceu estável. A interpretação prevalente, obviamente não a única, indica uma violência intraespecífica sob escala sem precedentes: não catástrofe ambiental, mas guerra sistemática entre grupos patrilineares, extermínio em massa de populações masculinas vencidas. Permanece indeterminado se a violência hipotetizada seja consequência do processo já iniciado ou se a crise que a produziu acelerou o processo mesmo — plausívelmente, ambas as direções operam em circularidade.
A respeito da não impossível reação
Pouco interessados em exercícios de previsão, nem em multiplicar hipótese sobre hipótese, limitamo-nos aqui a constatar que o empurrão do processo reside na ideia de que o homem, de modo não homogêneo, interioriza ou combate. Para indicar a pura possibilidade duma intervenção, Jacques Camatte recordava um caso notável de desaparecimento instantâneo dum tabu alimentar. É útil recordar como a interiorização dum tabu possa ser tão forte ao ponto de provocar, naquele que descobre tê-lo violado sem saber, a morte: os antropólogos e os fisiólogos a chamam de morte por persuasão, e a descrevem como um colapso psicossomático de irreversível convicção duma condenação. O caso mencionado por Camatte era o Ai Noa do Hawaii, o gesto público do rei, que em 1819, comendo publicamente os alimentos proibidos, dissolveu num dia um sistema milenar.
Linhas de pesquisa intrigantes
A MTAP acena para a existência de intuições do processo de abstração ao fim do início. Aquelas ainda relevantes são formulados na linguagem de suas respectivas culturas, e identificam, personificam, não a morte ou a doença, mas aquela própria dinâmica como "mal". ¶ O Alcorão narra a queda de Iblīs com um detalhe ausente na tradição bíblica canônica: quando Deus o ordena a prostar-se diante de Adão, Iblīs recusa declarando "Eu sou melhor que ele: me criaste do fogo, enquanto ele tu criaste da argila" (7:12). O motivo precede na Vida de Adão e Eva (apócrifo judeu-cristão, I século): Samael/Satanás recusa-se a rebaixar-se a "uma criatura de lama". ¶ Esta figura que na tradição cristã é identificada como "pai da mentira" e "impostor", encontra sua contraparte moderna no processo que substitui sistematicamente o real com simulacros. O mecanismo substitutivo foi intuído também na literatura. Edgar Allan Poe com The Man That War Used Up [O homem que a guerra abusou] (1939): o protagonista, um general celebrado, revela-se um conjunto de próteses, dependente dum servo para "reconstruir-se" toda manhã. Cópia ilusória do humano, aparece como autônomo, mas é totalmente dependente. ¶ Sob um registro mais leve — neste caso a intuição resguarda a modalidade de resistência — podemos mencionar também a figura taoísta de lord Emsworth, que fingindo-se mais tonto do que é consegue sempre o prazer da sombria companhia de sua amada porca, fugindo das armadilhas repetitivas das irmãs, despóticas encarnações domésticas da abstração; e do bom soldado Švejk, que atravessa a megamáquina militar obedecendo com tal zelo idiota para tornar-se inservível, sobreviver e ter prazer — beber cerveja, contar histórias, substituir um tenente por uma amante como atendente, entre chás e doces —, enquanto o Império, que nem sequer detestava, colapsa. A sapiência da lama.
Três exergues
A MTAP é aberta com Camatte e Heráclito e encerrada com Konrad Weiss. Camatte, com sua "adesão à eternidade", fixa o campo do problema: a fuga da humanidade da natureza rumo à segurança da própria abstração, acabando na criação do capital. Heráclito e Weiss, ambos ditos Obscuros, iluminam os dois extremos nesta condição. ¶ O fragmento 89 de Heráclito enuncia a cisão originária: para os despertos (τοῖς ἐγρηγόροσιν ) existe um mundo único e comum (ἕνα καὶ κοινὸν κόσμον ), enquanto os dormentes envolvem-se cada um ao próprio mundo privado (εἰς ἴδιον ἀπoστρέφεσθαι ). É a imagem arquetípica da abstração: a perda do κόσμος κοινός, o fechamento perceptivo que substitui a realidade compartilhada com representações individuais. ¶ Weiss, muitos séculos depois, formula em termos poéticos um possível despertar: So wird der Sinn, je mehr er sich selber sucht, / Aus dunkler Haft die Seele geführt zur Welt. / Vollbringe, was du mußt; es ist schon / Immer vollbracht, und du tust nur Antwort. ¶ A estrutura da passagem parece quiástica: dois movimentos inversos e simultâneos. O Sinn (sentido), quanto mais procura a si mesmo, é conduzido rumo à própria sede, a interioridade autêntica. A Seele (alma), quanto mais procura a si mesma, é conduzida rumo ao externo, zur Welt, à luz, fora da "prisão obscura". ¶ A prisão não é o exílio no mundo material, mas o isolamento do mesmo: o isolamento no ἴδιος κόσμος dos dormentes. A alma conduzida ao mundo é a alma que retorna ao seu lugar natural, a comunidade orgânica do κόσμος κοινός. ¶ "Faça aquilo que deve" não introduz um dever moral, mas o reconhecimento do movimento próprio dos vivos, que realiza-se aderindo à sua natureza. "É já de sempre feito, e tu não faz mais do que responder" dissolve a espera redentiva: a ação não quer mudar a realidade, mas habitar operando em seus espaços de oportunidade. O presente é inteiro e suficiente. ¶ E a resposta, a Antwort, de Konrad Weiss, o Epimeteu cristão, não é outra que o eco ocidental do wu-wei de Lao-Tsé: agir sem se forçar, responder àquilo que é ao invés de impor aquilo que deve ser.
Grupo Gemeinwesen.
Última revisão 26 novembre 2025
Tradutor: Straw
Wehrlos, doch in nichts vernichtet
Inerme, ma in niente annientato
(Der christliche Epimetheus
Konrad Weiß)
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