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O Glossário de Jacques Camatte​

Nota de tradução  Glossário  Abstratizar:  Advir:  Agir:  Alienação:  Antropomorfose:  Apego:  Aptoevolução [ou haptoevolução]:  Aptogestação [ou haptogestação]:  Autonomização:  Caminho:  Capital:  Certeza:  Ciência:  Cognoscência:  Combinatória e combinismo:  Compartimentação:  Comunismo:  Confusão:  Consciência:  Cósmo:  Dejecção:  Depetição [Déjouement/Degiocamento]:  Díade:  Domesticação:  Emergência:  Encobrimento:  Episteme:  Equivalente geral:  Errância:  Escamotagem [ou subterfúgio]:  Especiose:  Espontaneídade:  Estado:  Estado hipnóide e estado histeróide:  Esvaziamento:  Eternidade:  Extratância:  Fardo:  Filosofia:  Fuga [ou escape]:  Fundiarização:  Gemeinwesen:  Imediatez:  Imediatismo:  Impronte [de imprinting — Lorenz [Empreinte/Impronta]]:  Incoação:  Inconsciente:  Individualidade:  Inimizade:  Instinto:  Invariância:  Inversão:  Kairós:  Liberação:  Loucura:  Mercantil:  Mistificação:  Mito:  Morte potencial do capital:  Naturalidade:  Natureza:  Númen:  Objetificação:  Obsessão:  Ontose:  Participação:  Permissividade:  Phylum:  Porte [portar/carregar/levar]:  Posicionamento:  Presença:  Procrastinação:  Redução:  Reflexividade:  Religião:  Remoção:  Repetição [Rejouement/Rigiocamento]:  Repressão:  Repressão parental [ou genitorial]:  Restauração:  Retenção:  Retorno:  Reversão:  Revolução:  Sexualidade:  Sobremundo:  Sobrenatureza:  Terapia:  Tragling:  Transcendência:  Trauma:  Utopia:  Valor:  Violência:  Vir-a-ser [ou ser-advir]:  Virtual: 

Fonte da tradução: Espartaco maio 29, 2026. Tradutor: Straw. ​

Nota de tradução​

Escrito ao longo do tempo, até 2022, já no final da sua vida, Glossário é um dos últimos textos de Camatte, onde ele sumariza e estabelece definições como ponto de referência a termos recorrentes ao longo de toda sua obra.¶ Como parte dum projeto de tradução interrompido, havia traduzido fragmentos e passagens do Glossário ao nosso idioma. Agora, com a retomada do projeto da Espartaco, decidi por recolher as traduções parciais e completar a tradução do texto, que aqui se encontra, inteiramente.¶ A presente tradução teve como base a versão italiana do texto, ainda com consulta à francesa, ambas retiradas de ilcovile.it . Os colchetes são adições minhas, sejam para complemento, sejam para indicar traduções alternativas às palavras, ou para indicar o termo original no texto.​

Straw

Glossário​

As definições a seguir são pontos de referência. Porque toda definição inevitávelmente opera uma redução, procuramos por efetuá-la extraindo-a dum continuum significativo, sem operar uma separação clara a respeito disso.¶ Doutro lado, porque os nomes para o no mais designado são o resultado dum processo (indicado pelo verbo) — resultado que é uma substantificação, suporte duma hipérbole possível —, o que é uma outra forma de redução, procuramos por refluificar o discurso evitando toda fixação-condensação favorável ao devir ontósico.​

Abstratizar:​

Ação de separar para destacar dados duma realidade, dum dado fenômeno, para consentir o desenvolvimento duma outra que pode manifestar-se como instituição (o Estado por exemplo) ou então o implante duma entidade ou o reforço duma preexistente (Deus por exemplo).¶ Todavia, a abstratização se distingue da abstração no sentido de que nela a separação em relação à totalidade se manifesta de modo incompleto, num esboço que pode também abortar, e que no caso duma transferência dum âmbito ao outro, a totalidade que recebe não é negada. Em outras palavras, ela não porta a autonomização, como no caso da abstração.¶ O modo da cognoscência, liberado pela separação e pela repressão, implica na abstratização dum ou mais elementos da realidade, o pô-los em relevo, de modo a poder fazer uma investigação detalhada, sem perder a presença da totalidade, nem a nossa [presença].​

Advir:​

Processo pelo qual se atinge a plenitude daquilo que se desejava atingir.​

Agir:​

Modalidade do movimento no homem e na mulher — expresso num comportamento — que implica a união do pensamento e da ação. O pensamento nos aparece enquanto energia. Sem pensar, não podemos agir; seríamos apenas autômatos, ou dominados dum "outro".​

Alienação:​

Processo no curso do qual aquilo que era próprio torna-se outro, estranho. A natureza negativa, nociva deste fenômeno deriva do fato de que o outro contém uma dimensão antagônica ao si mesmo, àquilo que se é próprio.¶ “Ao movimento de separação-cisão (...) conecta-se aquele de autonomização (Verselbstständigung) dos produtos gerados pela atividade humana, aqueles da relação social que essa gerou. Ela é também acompanhada duma apropriação-expropriação (Enteignung) na qual a exteriorização (Veräusserung) da capacidade no curso da manifestação (Äusserung) do ser humano é de fato uma espoliação (Entäusserung). Ela é ao mesmo tempo um estranhamento (Entfremdung) devido ao fato dos produtos tornarem-se estranhos aos seus produtores e estes últimos à sua comunidade. O movimento resultante é uma inversão-destruição (Verkehrung) que faz com que as coisas tornem-se em sujeitos (Versubjektivierung), e os sujeitos, em coisas (Versachlichung); o que constitui uma mistificação cujo resultado é o fetichismo da mercadoria ou do capital, que faz com que as coisas possuam a propriedade-qualidade dos homens”.¶ Esse conjunto de processos implica que no fim seja gerada uma "figura" hostil à pessoa que a operou; o que implica também na existência dum mecanismo cujo os homens e as mulheres não são conscientes e que tende a inverter o escopo daquilo que procuraram obter. Assim tornam-se confinados, encurralados, num devir que prefeririam evitar. Com isso, a alienação conduz à loucura. O complexo de seus fenômenos constitutivos retorna no campo da especiose-ontose.​

Antropomorfose:​

~ Da divindade: Metamorfose do númen (do sagrado) numa figura humana. É acompanhada duma divinomorfose que originariamente concernia à unidade superior representativa da comunidade abstratizada tornada Estado em sua forma primitiva. Sucessivamente ela pode concerner os místicos.

~ Da propriedade fundiária: Fenômeno exposto por K. Marx em Para uma crítica da filosofia do direito de Hegel, onde afirma, em particular, que não é o homem que herda a propriedade fundiária, mas o contrário. Essa antropomorfose é a expressão suprema do fenômeno da fundiarização, do culto da autoctonia, da mística do solo. O seu complemento, segundo K. Marx, é uma zoomorfose dos homens e das mulheres. Pode-se acrescentar uma ctonização, compulsão por retornar àquilo que é posto como fundamento, como origem: a terra como solo (a sepultura seria um suporte) e "mística" dela.

~ Do trabalho: Fenômeno que se impõe na ocasião da dissolução do modo de produção feudal, com a autonomização da forma feudal e a emergência do artesanato. Exprime-se através do grande movimento artístico que se inicia em Flandres e na Itália, com a emergência da figura dos engenheiros, com a afirmação da filosofia do fazer. É um dos componentes da gênese da ciência experimental. ¶ A sua influência se faz sentir dentro do movimento socialista, especialmente entre aqueles que K. Marx chamou de socialistas ricardianos, em J. Proudhon, e na Primeira Internacional; com efeito encontra-se em K. Marx e F. Engels na sua exaltação do trabalho como atividade específicamente humana. Lá reencontra-se na confusão gerada por aquilo que é chamado atualmente de fim do trabalho. ¶ Seu complemento é a dependência do trabalho a tal ponto que o homem é essencialmente definido por ele e somente através dele pode ser compreendido; têm-se [então] o Homo faber e a exaltação da técnica, do humanismo, bem como do ativismo e do movimento (o movimento é tudo).

~ Do capital: Fenômeno que faz com que o capital torne-se homem,  "a human being (um ser humano)" segundo K. Marx. Seu complemento é a capitalização dos homens e mulheres que tendem a tornar-se em objetos técnicos, imersos na imediatez do capital, que pode também ser percebida como a sua imanência.​

Apego:​

Forma ontósica da procura do colocar-se em continuidade. Ele manifesta o medo do abandono.​

Aptoevolução [ou haptoevolução]:​

“...com o phylum Homo, impõe-se uma outra evolução (a aptoevolução), que é caracterizada pela produção de órgãos por assim dizer externos ao corpus orgânico-psíquico. Estes órgãos são utensílios, em sentido amplo, que consentem uma massa em continuidade da espécie com o seu ambiente”.​

Aptogestação [ou haptogestação]:​

Fase do desenvolvimento do Homo sapiens que ocorre após o nascimento e dura aproximadamente dois anos. A. Montagu falou de exterogestação. Prefiro, referindo-me a Frans Veldman, criador da aptonomia [ou haptonomia], falar de aptogestação.​

Autonomização:​

Processo no curso do qual as determinações originárias dum fenômeno tornam-se inoperantes. Processo ontósico que visa fugir da dependência parental e que tende, inevitávelmente, a ritualizar a separação.​

Caminho:​

O modo pelo qual um homem, uma mulher, progride, isto é, avança, na realização de sua potencialidade, em relação com seus semelhantes, com o mundo interrelacional, na natureza, no cósmo. ¶ O caminho não implica na necessidade de seguir um percurso bem definido, soberanamente pré-estabelecido. No momento atual, para aqueles que procuram emergir, implica necessariamente o abandono deste mundo.​

Capital:​

É definido à base da obra de K. Marx: o valor que atinge a autonomia e que pode perpetuar-se seguido da submissão do movimento social, através do domínio da relação salarial (submissão do trabalho ao capital).​

Certeza:​

Adesão à eternidade.​

Ciência:​

Conjunto duma episteme (matemática e lógica) e duma práxis: a experimentação. A ciência é efetivamente ciência experimental. Aquilo que é designado como tal, pelas épocas que precederam sua emergência, é na realidade uma episteme. É oportuno distinguir a experiência da experimentação. A primeira é em relação com o vivenciado e com dados psicoexistenciais e entra no âmbito da imediatez, daquilo que acontece e do qual se traz um ensinamento a posteriori. Não é esse o caso da segunda que é, por assim dizer, mediada pela hipótese a se verificar. Todavia, um individuo pode comportar-se nos confrontos de si mesmo como em relação a um objeto de experimentação, o que indica a influência que a ciência pode ter sob o modo de ser dos homens e das mulheres.​

Cognoscência:​

A cognoscência é a apresentação-exposição da realidade que afeta o ser humano, a espécie. É então modificada em função das convulsões pelas quais ela passa. ¶ A representação implica a assunção da descontinuidade entre o ser e sua realidade e o implante de várias mediações para reencontrá-la, instaurando uma dependência em relação ao descontínuo, fonte da inquietude.​

Combinatória e combinismo:​

Combinismo: teoria e comportamento — teoria e prática não são separados — cuja base é a combinatória. Isto implica que o real resulta do instaurar-se desta, e que o apresentar-se dele, a sua manifestação, implica numa combinatória de epistemes, também muito antigas, e numa combinatória de práticas. Estas se apresentam como manipulações, no sentido mais geral, que inclui tanto a experimentação científica quanto a bricolagem, portanto o todo artesanal técnico produzido em milhares de anos. Pode ser combinatória somente se se há coexistência, tolerância, permissividade, jogo, posta em jogo ou posta em cena; somente se todos os elementos possuem um certo jugo; doutro aspecto são necessárias transparência, adaptabilidade e o seu complemento, a seleção, o que implica também na obsolescência porque a combinatória se renova, e a ilusão do progresso, assim como a imaginação, e a inovação. O todo é possível, e sobretudo provável, [ele] se impõe graças às redes e à comunicação, agentes essenciais do advir da combinatória e de suas realizações.

A combinatória é num certo sentido despótica: ela engloba tudo, recupera tudo, até mesmo os valores. É o jugo do capital tornado completamente autônomo, privado de substância, de interioridade (antropomorfização autonomizada), que se presta a tudo graças à expansão da comunicação que os homens e as mulheres percebem como valor, com o fim de poder novamente situar-se no seu mundo. Todavia, a combinatória pode somente ser efetivada se os agentes confiem à dinâmica que, definitivamente, é a epifanização do mecanismo infernal. Um imperativo moral domina o todo, mesmo que não seja dito: deve-se combinar para se adaptar e, por isso, ocorre espoliar-se de tudo aquilo que, em nós, pode inibir a comunicação, motor da combinatória. ¶ Os fenômenos vitais são interpretados, vivenciados, através da combinatória. Ex: a sexualidade. Se combina para existir.​

Compartimentação:​

Fenômeno que intervém naquilo mais amplo da redução. Consiste no operar da descontinuidade na pessoa com o fim, fundamentalmente, de inibir a generalização do sofrimento.​

Comunismo:​

“O comunismo não é um novo modo de produção, é a afirmação duma nova comunidade. Não é de modo algum uma nova sociedade.” (Errância da humanidade, maio de 1973). Além disso, como mostrado por K. Marx, em particular nas Grundisse, aquilo que se impõe originalmente são comunidades diversas. É aquilo que a espécie deve e tende a restabelecer, através duma imensa inversão. Por consequência é melhor abandonar este conceito e, além do mais, é preferível utilizar Gemeinwesen no lugar de comunidade. Doutra parte, é melhor dizer "quero viver comunitariamente" do que "em comunidade". Isto preserva a espontaneídade do fenômeno e evita imobilizá-lo. ¶ Acrescento que designar um movimento com a palavra comunismo é fazer deste numa hipóstase.​

Confusão:​

O desejo de fundir-se com o outro (ser humano-feminino ou qualquer entidade) entra no âmbito deste conceito e adiciona-se ao seu conteúdo habitual.​

Consciência:​

Formação derivada da ação da repressão parental.​

Cósmo:​

Refere-se à totalidade eterna e sem limites.​

Dejecção:​

Conceito de origem teológica: estado da criatura abandonada por Deus. Exprime a total dependência e a perda de quaisquer suporte, quaisquer referência. Os conceitos de Hilflosigkeit (S. Freud), Geworfenheit (M. Heidegger), Loneliness (H. Arendt) podem traduzir a dejecção. O resultado da decadência da presença (E. de Martino) é um estado de dejecção.​

Depetição [Déjouement/Degiocamento]:​

Comportamento mediante o qual procura-se não repetir [rigiocare] (refazer aquilo que já havíamos feito, ou aquilo que nossos pais fizeram).​

Díade:​

A menor unidade de base da espécie não é o indivíduo, homem ou mulher, mas a díade homem-mulher pois, potencialmente, ela contém a criança, e portanto o devir da espécie. Isso é verdade a todas as espécies sexuadas. No mais, todo indivíduo possui potencialmente em si a potência da díade, doutra maneira não se poderia haver a continuidade entre os membros da espécie. ¶ Esta estrutura diádica é retornada em efeito na organização do mundo: o alto afirma potencialmente o baixo e vice-versa, e isso vale para todos os contrários. ¶ No curso de sua errância e de seu devir na artificialidade, a espécie foi induzida, por ser compatível com aquilo que vivia, a criar díades artificiais como a ambiguidade amizade-inimizade.​

Domesticação:​

“A domesticação, que se realizou quando o capital constituiu-se enquanto comunidade material, recompôs o homem que, ao início de seu processo, este havia destruído-parcializado.” (1973). ¶ Os elementos desta domesticação, que começam muito antes do surgir do capital, podem ser procurados nos fenômenos de separação do resto da natureza e na repressão parental.​

Emergência:​

Fenômeno que se verifica particularmente dentro duma fase de dissolução. Essa se afirma através dum salto qualitativo e é caracterizada pela aparição de novas determinações.​

Encobrimento:​

Atividade consciente que, inconscientemente, visa mascarar toda a vivência traumática, induzir ela a cair num esquecimento total.​

Episteme:​

Aquilo que permite organizar um saber em vista dum telos cognitivo. Reflexão sob tal saber para determinar-lhe validade e operatividade.​

Equivalente geral:​

É o resultado dum fenômeno de exclusão dum elemento dum conjunto, elemento que, doravante, poderá representar qualquer elemento do conjunto mesmo. K. Marx pôs em evidência isto no que concerne ao dinheiro (valor), mas é válido a todos os valores. A exclusão é acompanhada duma eleição. Em outras palavras, aquilo que é excluído é elegido, elevado ao grau de unidade superior que funda e representa. Os conceitos são um geral dos equivalentes gerais. Assim o Homem é um equivalente geral. Este pressupõe a exclusão dum determinado tipo de homem — aquele determinado pelo surgimento do modo de produção capitalista — que tenderá a representar todos os tipos de homens possíveis (que existiram ou que ainda existem). Isso aparece claramente quando se trata dos direitos do Homem.​

Errância:​

Modalidade de comportamento da espécie que se separa do resto da natureza. Procura por um lugar, por uma função e por uma justificação à situação na qual se encontra e se mete, com o fim de haver pontos de referência de vida própria para não errar (evitar uma repetição).​

Escamotagem [ou subterfúgio]:​

Dinâmica que faz desaparecer um dado importante, dando ao mesmo a impressão de tê-lo em conta.​

Especiose:​

Fenômeno isomorfo à ontose mas relativo à espécie: é aquilo que esta produz efetuando o seu devir ao de fora da natureza.​

Espontaneídade:​

Manifestação na qual não aparece nenhuma manifestação externa (dimensão do imprevisto). O espontâneo é aquilo que nasce do "processo de vida" da natureza, do cósmo; de mesmo modo no homem, na mulher, é aquilo que surge do processo de geração do agir, tanto em sua dimensão cognitiva (em relação ao pensamento), quanto em sua dimensão prática (em relação à práxis, à ação). É aquilo cujo poderá operar a reflexão. A espontaneídade é o modo de manifestação do instinto.​

Estado:​

Pode ser definido, em sua origem, somente através da exposição da comunidade que gera uma unidade superior (faraó, lugal, rei dos reis, etc.) que não representa a totalidade. É o surgir do Estado em sua forma primitiva, que se efetua no mesmo momento no qual se instaura o movimento do valor em sua dimensão vertical (processo de valorização). Ao mesmo tempo se opera uma antropomorfose da divindade e uma divinomorfose da unidade superior, e se instaura a religião. Sucessivamente, se impõe uma segunda forma determinada do movimento do valor em sua dimensão horizontal, fenômeno que não pode ser reduzido exclusivamente ao âmbito econômico. Fundamentalmente o Estado, através de várias formas, desenvolvidas a partir das duas primeiras acima citadas, tende a definir o homem, a mulher, a confiná-los em suas determinações.​

Estado hipnóide e estado histeróide:​

Na ocasião da restauração da situação derivada do trauma, fenômeno passivo, inconsciente, comparável a uma histeria, devido ao bloqueio inicial, e a tendência a portar em comprimento um fenômeno, o estado hipnóide e o estado histeróide manifestam-se seja conjuntamente, seja separadamente. O primeiro é comparável ao estado no qual se encontra a pessoa hipnotizada, o segundo é constituído por várias dores orgânicas.​

Esvaziamento:​

Conceito cunhado pelos membros da Internacional Situacionista, e que teve uma grande popularidade a partir de 1968. Penso que ele possui algo de comum com o de Verführung (S. Freud), traduzido como "sedução". O esvaziamento fundamental, que determina um impronte que poderá ser reativado e induzir as repetições, consiste no fato de que os pais esvaziam as crianças de sua naturalidade de forma a se adaptar ao mundo fora da natureza e artificial. Na dinâmica ontósica, é então acompanhado duma derrubada dos dados.​

Eternidade:​

Que não possui início e nem fim. Modalidade de ser do cósmo (sua epifania). Tudo aquilo que possui um início não pode tornar-se eterno. No que concerne ao homem, a mulher, ele, ela, podem tornar-se imortais; no concernente a um fenômeno, esse pode atingir uma perpetuação. Portanto, é um erro falar de eternização do capital; trata-se da sua perpetuação. ​

Extratância:​

Tendência de fazer ressurgir o transcendente, de extraí-lo da imanência; de extrair Deus de sua evanescência.​

Fardo:​

Elemento inconsciente, "sobrenumeral", transmitido durante um discurso, que atribui ao outro dados que não o concernem. O outro funciona agora como suporte para se dizer qualquer coisa que "tormenta" inconscientemente aquele ou aquela que fala. O fardo é correlato a um retorno e à reversão.​

Filosofia:​

Originariamente apresenta-se como a união duma episteme e duma práxis, a política.​

Fuga [ou escape]:​

“Dito em outros termos, para impor-se, para dominar realmente, o capital teve de assumir o controle da produção — realização do domínio real dentro do processo de produção imediato — sucessivamente à circulação e fundar assim o seu próprio processo global, o que o consente chegar à dominação (substancial) real sob a sociedade também através da substituição dos antigos pressupostos pelos seus próprios. Atualmente, para ser, não é mais obrigado a atuar um desvio através da esfera estritamente produtiva”.​

Fundiarização:​

Dinâmica econômico-social que põe a propriedade fundiária como elemento determinante ao acesso ao poder, dado que é esta que consente fundar uma classe dominante.​

Gemeinwesen:​

Conceito amplamente utilizado por K. Marx e G. W. F. Hegel. Não indica somente o ser comum, mas também a natureza e a essência comum (Wesen). É aquilo que nos funda e nos une [accomuna] participando ao mesmo ser, à mesma essência, à mesma natureza. É a modalidade de manifestação deste ser participante. ¶ Posso acrescentar uma interpretação pessoal do gemein. Ge é uma partícula inseparável que exprime a generalidade, o comum, o coletivo. Mein indica aquilo que é individual: o meu. Nisto surge em certo sentido a ideia duma não-separação entre aquilo que é comum e aquilo que é individual; o que implica o conceito de participação no qual se percebe ser num todo que é como que cossubstancial. ¶ A Gemeinwesen apresenta-se então como o conjunto da individualidade, a comunidade que resulta de sua atividade na natureza e no mundo criado pela espécie; no mesmo tempo se engloba, e a si a sua naturalidade (indicada pelo wesen), a sua substância como generalidade (indicada pelo gemein), num devir (wesen).​

Imediatez:​

Aquilo que se apresenta a nós. Pode ser expressão da espontaneídade, da continuidade.​

Imediatismo:​

Conceito forjado por A. Bordiga que exprime o fechar-se no imediato.​

Impronte [de imprinting — Lorenz [Empreinte/Impronta]]:​

Conceito criado por K. Lorentz, retomado amplamente por A. Janov. É a marca mnésica deixada por um trauma que pode ser revivido em seguida, provocando as repetições. R. Hubbard designou algo de similar com seu conceito de engrama.​

Incoação:​

Situação na qual se está por fazer algo, e portanto insere-se numa dada dinâmica. Pode tender a perpetuar-se seguida pela ontose.​

Inconsciente:​

Formação derivada da ação da repressão parental.​

Individualidade:​

Atitude de pôr-se enquanto momento de emergência e unidade perceptível do fenômeno vida. ¶ Para tender a evitar toda redução, falo de individualidade-Gemeinwesen para significar que não se há separação entre os dois, nem oposição a fortiori. A individualidade possui a dimensão da Gemeinwesen, pelo fato mesmo de sua emergência, não seguida duma separação, mas da manutenção da participação ao fenômeno vida.​

Inimizade:​

Dinâmica pela qual "o outro" é utilizado como suporte para presentificar o inimigo e, daí, iniciar o uso de diversas violências. ¶ O inimigo pode ser transitório, no jogo, nas discussões, em todas as formas de competição. ¶ Ela funda o comportamento da espécie separada da natureza.​

Instinto:​

É a expressão da naturalidade e se apresenta como um complexo de cognoscência, que temos adquirido desde a concepção e a formação de nosso ser (embriogênese e fetogênese), que nos permite cumprir o nosso processo de vida. Ele não se reduz ao inato, porque ele se "acrescenta" por um processo inconsciente no curso da vida, o que nos leva a agir, condição pela qual mantemos a continuidade com a nossa naturalidade, a realizar o nosso processo de vida num ambiente de devir. Graças a esse processo inconsciente, a individualidade (e portanto a espécie) aumenta as suas aquisições e as transmite aos seus descendentes. ​

Invariância:​

Conceito de origem matemática, usado por A. Bordiga para caracterizar o marxismo. São várias abordagens possíveis que põem em ressalto uma permanência dentro dum devir. Numa certa medida, ela indica a impossibilidade da perda e pode, por consequência, operar como suporte para uma afirmação ontósica.​

Inversão:​

Indica a instauração dum devir contrário àquele efetuado até hoje, que comporta, em particular: saída da natureza, repressão, rejeição, abstratização, revolta (insurreições, revoluções), mas também guerra e paz. Não é uma fuga daquilo de que se foi fugido e não é um retorno ao momento no qual isto se impõe. Não, porque é a partir da potencial Gemeinwesen em nós, aqui e agora, e na continuidade daquilo que convergimos e participamos, que acontecerá [a inversão]. Não se trata portanto de voltar a uma fase precedente, a um comportamento ancestral, mas de atingir a algo que germina em nós, na espécie: a profunda naturalidade que é sempre reprimida, em grande parte obscurantizada, assim como a continuidade com todas as coisas vivas, com o cósmo.​

Kairós:​

Indica o momento favorável que pode ser o suporte duma revelação, dum esclarecimento individual ou coletivo, ou duma massa em movimento, duma intervenção de vastas dimensões, duma revolta. ¶ Aparece como uma "ruptura" do tempo no qual se impõe um tipo de dilatação da duração, que consente a irrupção dum possível ao interior dum fechamento, dum bloco. ¶ Nele articulam-se o insurgir do inato e a sua negação, na mistura na qual este foi pensado, desejado, sonhado, ao interior duma dinâmica determinada pela nostalgia e pela utopia. ¶ A procura do kairós suscita dependência pelo fato de atendê-lo e de procurar sinais que possam prever o insurgir.​

Liberação:​

Movimento que consente a eliminação de obstáculos, de limitações. Pode traduzir-se numa apropriação se, simultâneamente, não nos é uma emergência, vale dizer a afirmação de algo que é novo, ou que foi fortemente removido em seguida da repressão, como é o caso do ser originário.​

Loucura:​

Estágio limite de vários distúrbios psicossomáticos profundos. Pode apresentar-se em duas modalidades, duas formas de confinamento. O confinar-se em si mesmo, a hiperbolização; e o confinar-se no outro, a alienação. Entre aquilo que é próprio (das Eigne) e aquilo que é estranho e outro (das Fremde), não se há simplesmente conflito, como afirmou O. Gross (e antes dele, M. Stirner e, em certa medida, S. Kierkegaard), mas uma complementaridade, na qual o outro pode aparecer como o salvador no qual identificar-se.​

Mercantil:​

“O capital, com o acesso à autonomia, se antropomorfiza. Simultâneamente, cria um ambiente dos homens e das mulheres que é uma segunda natureza. É o mercado com tudo aquilo que lhe é correspondente: publicidade sob variados suportes, marketing, mailing, etc... Por conseguinte, pela analogia com o "natural", usamos a palavra mercantil para qualificar o ambiente que atualmente nos circunda”.​

Mistificação:​

Vide "Alienação".​

Mito:​

União duma episteme e duma práxis (conjunto de ritos). Sem ritos, como destaca R. Otto, o mito se reduz a narração, fábula, lenda. O mito é legado à comunidade, à religião, ao Estado.​

Morte potencial do capital:​

Ocorre a partir do momento no qual o número daqueles que fazem circular o mais-valor torna-se maior que aquele daqueles que o produziram. Verificou-se pela primeira vez nos EUA pela metade dos anos cinquenta do século passado e tende a difundir-se em várias áreas. É também legada a uma enorme substancialização (produção de capital fixo) que inibe o movimento incessante do capital que é tal somente se se capitaliza indefinidamente. Daí o enorme implante da especulação que corresponde a uma autonomização da forma-capital e, tendencialmente, à sua evanescência na virtualidade.​

Naturalidade:​

Modo de manifestação do processo de vida, operante na natureza, ao nível duma individualidade ou da espécie.​

Natureza:​

Conjunto de seres vivos, Homo sapiens incluso, e de suas relações recíprocas, assim como a dos últimos com o suporte inorgânico do planeta Terra.​

Númen:​

Termo criado por Rudolf Otto para designar o sagrado na dimensão daquilo que fascina e espanta. Este conceito é inseparável daquele de dependência absoluta. O primeiro é legado a Deus, o segundo à criatura. Estes exprimem bem a relação, não-natural, da criança com a mãe, ao início, e com o pai, em seguida.​

Objetificação:​

O fato de considerar-se, ou até mesmo comportar-se, como um objeto.​

Obsessão:​

Conceito que indica dois fenômenos: ser habitado, invadido; e submeter-se a um enxerto (ser enxertado).​

Ontose:​

“É um fenômeno de adaptação ao modo de vida imposto pela separação da natureza, que induz inevitávelmente a repressão parental. Esta é simultâneamente o resultado desta adaptação que funda o ser ontósico. É constituída dum conjunto de processos inconscientes que fundam o comportamento inconsciente do homem, da mulher.”​

Participação:​

A individualidade-Gemeinwesen, por sua quididade — aquilo que sua definição contém — implica na participação, pois a dimensão da Gemeinwesen não se limita à espécie, nem aos outros seres vivos, mas a todo o cósmo. Participar é fazer parte sem ser separado, é exercer parte e intervir num devir.​

Permissividade:​

É caracterizada por uma ausência de afirmação dos pais, o que inibe a continuidade na sua efetivação imediata assim como na sua reflexividade; a causa da ausência de confirmação, de reconhecimento e de ser reside na indiferença. A possibilidade da retroação tende a perder-se, da qual [resulta] uma desorientação. Portanto: inibição da continuidade, sem proibição.​

Phylum:​

Conceito usado de modo heterodoxo na expressão "phylum Homo", porque Homo é um gênero. Quero significar que a partir do Homo (e também do Australantropi) se dá um vasto fenômeno — que possui a força duma verdadeira e própria filiação — de acesso à reflexividade e à participação; sem desconsiderar que este tende a realizar-se entre outros grupos animais, e interrogando-me profundamente: o que ocorre com as árvores? ¶ Segundo a sua concepção espírita, que nos é estranha, Theilhard de Chardin concebeu de modo grandioso um devir similar, mas a respeito de todos os seres vivos, em particular o Homo, não operando de por si mesmo, porque é determinado por um atrator, que funda a sua dependência, o ponto ômega que é ao mesmo tempo um limitador do devir.​

Porte [portar/carregar/levar]:​

A criança deve ser constantemente portada (Franz Renggli e vide "Tragling"). Não fazê-lo, induz a uma dinâmica ontósica muito consistente: a procura dum suporte, duma pessoa que nos porte (daí a repetição da dependência); mas é também fazer portar aos outros aquilo que nos desordena (reversão, fardo), nos obsessiona (dados inconscientes em relação aos traumas súbitos). ¶ Os derivados do porte veiculam também a ele um dado ontósico: suportar, transportar, reportar, relacionar, deportar, importar. ¶ Portar a criança é permití-la de permanecer em continuidade com a sua espéciogênese. O homem, a mulher foram portados pelas árvores e os adultos são árvores para as crianças.  ¶ (F. Renggli escreveu um livro sobre mitos suméricos no qual ele interpreta como reporte das estórias seu nascimento. Um outro psicanalista interpretou as pinturas das paredes dos edifícios egípcios como representações também elas dum "dizer" semelhante).​

Posicionamento:​

“Posicionar-se não é fixar-se a um lugar dado, mas é encontrar-se na totalidade em devir, sendo presente a todos os devires em particular. (...) Posicionar-se é dar significado à própria presença: é significar.”​

Presença:​

Exprime a existência, o ser imediato e o seu poder de manifestação. Se impõe como o manifestar-se da individualidade-Gemeinwesen.​

Procrastinação:​

Ação de adiar um intervento qualquer para mais tarde, na esperança de deparar-se no kairós.​

Redução:​

Fenômeno fundamental na dinâmica espécio-ontósica. Esta opera tanto no nível social quanto no econômico, político, psíquico e cognitivo (ao nível do processo de cognoscência). Socialmente, ela gera o indivíduo; psicológicamente, a solidão.​

Reflexividade:​

Atitude de não limitar-se à imediatez e capacidade de operar uma reflexão, um retorno sobre, com o fim de perceber além do imediato.​

Religião:​

União duma episteme e duma práxis (série de ritos). É legada ao Estado e implica na restauração de algo que esteja perdido.​

Remoção:​

Conceito cunhado por S. Freud que indica o processo inconsciente que impede (inibindo) que aquilo que provoca um sofrimento intolerável ou que pode recordá-lo, reativá-lo, possa tornar-se consciente. Aquilo que ele percebeu no imediato é o retorno ao removido (fenômeno inconsciente para o paciente), em particular através de sinais (sintomas) orgânicos. Deduziu que à origem estava um fenômeno de remoção (Verdrängung).​

Repetição [Rejouement/Rigiocamento]:​

Conceito amplamente usado por A. Janov, derivado daquele freudiano de "coação a repetir", o qual indica que nós tendemos inconscientemente a refazer aquilo que vimos em seguida dos traumas ou a replicar aquilo que nossos pais viram. A repetição inicia geralmente com uma depetição. A repetição é gerada pela coação a repetir, determinada pelo trauma fundador da marca. As crianças não podem absolutamente captar o que está acontecendo, pois está fora do seu processo de vida natural. Ora, sem a compreensão, o fenômeno é bloqueado; não pode chegar ao fim do processo de eliminação que permite de se restaurar aquilo que foi perturbado. Por consequência, verifica-se uma tendência a fazer, sim, que o fenômeno seja de qualquer modo reproposto com o fim de se chegar à conclusão daquilo que aconteceu. É nesta dinâmica de reproposição que impõe-se a repetição. Lá se encontra inconscientemente uma situação na qual o cenário traumático possa repropor-se. É aqui que intervém os suportes que podemos também perceber como substitutos, ou como simulacros. Então é-se empurrado a repetir. A compulsão por repetir pôde ser mais ou menos confusa com o desejo de encontrar aquilo que foi perdido no curso das fases anteriores de desenvolvimento, seja no nível do indivíduo ou da espécie. Este desejar é muito frequentemente cossubstancial com a nostalgia, e também com a expressão duma profunda insatisfação, expressão ela mesma da ontose-especiose. Pode-se perceber isto na temática da Aufhebung de G. W. F. Hegel ou na arte, com, por exemplo, a importância dada à simetria radial que foi prerrogativa dos equinodermos, nossos ancestrais distantes. ¶ Devemos distinguir a repetição da ritualização que implica um ritmo, de tal modo difícil de se individuar, que permite que a determinados intervalos imponha-se um fenômeno similar, como o retorno das estações.​

Repressão:​

Consiste na inibição da naturalidade e na interdição da continuidade.​

Repressão parental [ou genitorial]:​

Repressão da naturalidade da criança, com o fim de adaptá-lo ao devir de fora da espécie. Esta — a errância — foi determinada pelo desejo de fugir do risco da extinção que, no curso do tempo e como resultado das repetições, tem operado como a marca duma ameaça. Para fugir desta, a espécie sobreprotege e procura incansávelmente pela segurança. Assim fazendo-a sempre afundar mais na artificialidade. ¶ Esta repressão é então ordenada aos genitores pelo Estado, pelos costumes, etc. Ela é em grande parte inconsciente e por vezes, para as pessoas que agora possuem uma certa natureza, confina uma autorepressão. ¶ A dimensão inconsciente deriva em grande parte do fato que os pais são completamente desadaptados frente às crianças, coisa que lhes faz "cegos" à sua naturalidade e com que devam recorrer a "métodos" para "gerir" suas relações com elas. É aqui que se enraíza a ideia de que "não se nasce, torna-se" e que se deve aprender a viver. ¶ Não deve-se confundir repressão com maus-tratos.​

Restauração:​

“...se traduz na reafirmação, a restauração do estado hipnóide e do estado histeróide, em seguida duma parte da evanescência da realidade, que perdeu o seu significado ao indivíduo, e em seguida duma espécie de fenômeno da história, de elasticidade, que tende a reimpor aquilo que se é produzido mas que não havia podido chegar à sua completude após a ruptura traumática”.​

Retenção:​

Fenômeno inconsciente devido à ruptura da continuidade. O fluxo da vida não pode mais fluir normalmente e "se acumula".​

Retorno:​

Fenômeno involuntário e inconsciente durante o qual se manifestam dados da vida psíquica que a pessoa tende constantemente a remover.​

Reversão:​

Fenômeno inconsciente no qual o indivíduo tende a expulsar o excesso nele causado pela retenção. A mesma condiciona o fardo.​

Revolução:​

Pode ser definida como resultante da união duma episteme, que pode incluir a ciência, e duma práxis, a insurreição, que pode ser uma arte. Na obra final de A. Bordiga ela é posta como a superação da teoria e da práxis. "Pode-se escrever a tese assim: uma só práxis humana é imediatamente teoria: a revolução". Uma tal abordagem ao comportamento da espécie, cujo fundamento é a relação entre pensamento e ação, não é algo novo. Pode ser encontrada em vários místicos e especialmente em alguns teólogos cristãos ou muçulmanos.​

Sexualidade:​

Apresenta-se como um suporte fundamental de confusão e de errância. Recordarei simplesmente que trata-se dum fenômeno que se impõe por volta de três bilhões de anos após a aparição de vida sobre a Terra. Ela diz respeito à simbiose porque a sua base é a união de dois núcleos. A partir disso, intervém uma série de fenômenos cujo integral constitui a sexualidade. Não se ter em conta a integralidade é próprio da dinâmica de redução e de escamotagem da sexualidade enquanto função de continuidade.​

Sobremundo:​

Conjunto de todas as produções virtuais que tendem a substituir-se no sobrenatural.​

Sobrenatureza:​

Conjunto das entidades não perceptíveis e de suas relações, que agem e determinam o devir dentro da natureza e do mundo que se edifica a partir desta.​

Terapia:​

Intervenção que visa aliviar, curar, efetuada então em vista de trazer um benefício.​

Tragling:​

A realização do tragling constitui um momento importante da aptoevolução na qual a criança humano-feminina torna-se um ser a ser portado, pois não é apenas filhote — restante no grupo no sentido de que é nascido — mas deve ser constantemente portado pelos adultos (assim como os adolescentes e os mais velhos). Tragling deriva do verbo alemão tragen, que significa endossar. Tal conceito foi efetivamente desenvolvido pelos alemães. Essa necessidade do porte põe em evidência em qual grau a continuidade é essencial ao Homo sapiens. O face-a-face durante o transporte é em continuidade com aquele durante o acoplamento. Isso implica, no mais, que a dimensão familiar é a da comunidade, outra relação no curso da aptoevolução. Este conceito de tragling nos faz perceber a importância dos filhotes para o homem e para a mulher, assim como a da verticalidade. A não realização do porte e por consequência a não manifestação do tragling determinam uma quantidade de problemas. Por outro lado, o ato de portar gera uma série de comportamentos, e "portar" (assim como seus derivados) tem uma importância considerável enquanto dado analógico para significar várias atitudes humano-femininas. De mesma maneira o portar possui uma relação com o posicionamento, porque posicionar-se é portar-se sob continuum e com isso revelar a própria presença.​

Transcendência:​

“Transcender visa a sair do bloqueio operado pela cesura, a atravessar o espaço, o vazio, o abismo, induzido pela realização da descontinuidade. Visa também a existir a partir dum além, a partir dum ponto fixo que deve determinar todo o devir que se desenrola nesse além denominado transcendência. A mesma palavra indica o movimento para acessar-mo-nos”. A instauração da "unidade superior" opera como epifanização da transcendência enquanto devir último da verticalização (cf. movimento do valor).​

Trauma:​

Distúrbio intenso, que toca tanto a "soma" quanto a "psiché", e que gera uma regressão mais ou menos reversível no curso da vida da pessoa.​

Utopia:​

Lugar no qual pode-se finalmente fugir à ameaça e não repetí-la.​

Valor:​

“É o fenômeno da representação do descontínuo que opera na comunidade que se desintegra; o que põe a necessidade duma quantificação que torne idônea a representação do posicionamento de seus membros ao seu interior”. ¶ “O valor é um operador da atividade humano-feminina, a partir do momento no qual se há uma cisão com a comunidade. É um conceito que inclui métrica, quantificação, juízo de existência. Ele se purifica no curso de sua autonomização, vale ser dito que se destaca das representações míticas e se farda de novas determinações seguidas da sua operatividade em vários âmbitos — ao de fora daquilo estritamente econômico do qual é feito a sua determinação que o faz operativo — que podemos conhecer dos devires mais ou menos divergentes”. ¶ Todo valor é um equivalente geral, quer seja o valor econômico, a justiça, a honra, o amor, a bondade, etc...​

Violência:​

“A violência aparece, se manifesta, não apenas tem ruptura num processo. É ela que permite a ruptura, no ambiente físico, cósmico, humano”.​

Vir-a-ser [ou ser-advir]:​

Parece que o ser seja na realidade uma redução do advir. O advir é a expressão-manifestação da participação. A perda da participação (daquilo que ele, ela, participa) reduz o homem, a mulher, a um ser. Por consequência, para reencontrar a totalidade, o ser deve adquirir seja sua forma "material" ou "espiritual" pela qual foi apropriado. Num certo sentido, o advir é isomorfo à imanência e o ser à transcendência. Por consequência, eu indico vir-a-ser para significar o retorno à participação na qual o homem, a mulher, não é mais dissociado(a), mas encontra-se e move-se na plenitude.​

Virtual:​

“Chamaremos virtual aquilo que é projetado pelo homem, pela mulher, e que não é compreensível, como a imagem virtual, assim como um resultado de todo um processo técnico que se traduz numa simulação. Isto é totalmente em sintonia com o processo da ontose, que é aquele de tornar em concreto situações totalmente imaginadas e projetadas. O indivíduo, na medida em que é ontosiado, vive no virtual”. Ele torna-se virtual e portanto incompreensível aos outros; a comunicação torna-se impossível. Geralmente [isso] pode somente ser percebido em seguida dum ato de violência que extrai o virtual e o atualiza. ​

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Wehrlos, doch in nichts vernichtet
Inerme, ma in niente annientato
(Der christliche Epimetheus
Konrad Weiß)

 


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